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Diversos (3)

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Henrique Raposo escreveu um livro em que fala sobre o Alentejo. Fala, ou falará, porque o livro não foi ainda sequer lançado. Em contra partida já leva a distinta honra de ter sido, o Henrique, brindado com uma turba que pelas redes sociais o insulta, ameaça, procura censurar e que conseguiu mesmo que o local de apresentação do livro tivesse de mudar. (A galeria Tintos e Tintas “não quis estar envolvida” na polémica e cancelou – que isto de enfrentar as indignações de ignorantes exige, masculinos ou femininos, cojones.) Sei bem o que é aparecer um shitstorm online em que a acefalia das massas se traduz em inacreditáveis ataques pessoais e ameaças de violência por questões menores. Não li, como poderia?, o livro do Henrique nem vi a conversa com o Pedro Boucherie que, curiosamente, levou também à suspensão da página de Facebook do último. Nem sei se o que o Henrique escreve leva com a minha concordância ou discordância (agora vou mesmo de ter de comprar o livro). Mas nada justifica apelos à censura ou ameaças à vida de quem quer que seja. Opiniões parvas, para quem as achar tal, combatem-se com opiniões inteligentes e não demonstrando sérias lacunas sociocomportamentais. A psicodinâmica das massas continua a ser fértil em comportamentos que envergonhariam os seus elementos individualmente em condições normais – nem por isso se desculpam esses comportamentos. Ao Henrique e sua família um abraço e uma presença prometida se vier ao Porto.

Na mesma semana soubemos também que a McDonald's Portugal discriminava ao oferecer brinquedos para rapaz e brinquedos para rapariga. Repare-se bem, porque a coisa pode ser subtil: a McDonald's oferecia com o seu bem conhecido Happy Meal um brinquedo de entre, tipicamente, dois à escolha. Chocante. Ao oferecer brinquedos que apelassem mais ao público infantil masculino e feminino, e ao dizer qual é que achava que era mais apelativo a qual dos públicos, a multinacional norte-americano entrou no campo destas coisas bonitas do século XXI de que tudo é discriminação. Esta, em particular, do género não-discriminatório.

É que a McDonald's não proibia um funcionário a dar um brinquedo azul a uma menina ou um brinquedo cor-de-rosa a um menino. Apenas fazia uma apreciação que todos fazemos e que um sem-número de indústrias faz, seguindo padrões da moda, da sociedade e das tradições do nosso meio. Há algum mal num menino levar a boneca em vez do carrinho? Para a empresa certamente não haveria e para mim é igual ao litro. Mas, citando a secretária de estado da Igualdade, a política até agora adotada pelo McDonald’s era “discriminatória” e “a prática de dividir brinquedos por sexo é uma atitude discriminatória que reforça os estereótipos de género”. Suponho que venha aí uma revolução nas secções de roupa infantil da H&M que Deus me livre. Mais a sério: Quem é que inventa estas ideias e donde saem estas pessoas?

Semana sim, semana não – habituados já estamos – lá contamos com nova correção no Orçamento do Estado. Desta vez é o Conselho de Finanças Públicas que identifica discrepâncias em duas rubricas que minam mais uma vez a credibilidade do documento. A agência Moody's, depois de semana passada ter aplaudido as cedências de Centeno em Bruxelas e a inversão face ao primeiro esboço, veio esta semana frisar que o risco político se mantém e o défice terá dificuldades em ser atingido. O Conselho Económico-Social realça que o aumento da carga fiscal põe em perigo o crescimento económico e a competitividade das empresas.

Por fim uma nota mista sobre a proposta do Bloco de colocar as empresas e não o Orçamento do Estado a pagar os custos da existência da tarifa social de energia. Não me vou pronunciar sobre o concreto dessa tarifa, mas é de facto mais equilibrado retirar esses custos do OE e distribui-lo pelas empresas que depois, naturalmente, o farão cair sobre os seus clientes. Desta forma quem mais consome eletricidade é mais “penalizado” e contribui mais para este custo social, e quem consome menos ou poupa mais consegue contribuir menos. Numa participação cega por via do Orçamento do Estado não se consegue fazer estas escolhas e poupanças ao nível individual. Até aqui nada de estranho. Acontece no entanto que isso prejudica em particular os clientes das distribuidoras que tenham, por azar ou tradição, mais clientes com tarifa social. Se, p. ex., a EDP tiver um número sobreproporcional de clientes nestas condições, os restantes clientes da EDP contribuirão proporcionalmente mais do que os de outra empresa. Fica a nota.