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Expresso

À beira mar plantado

António Costa: campeão das falsas expectativas

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Um problema enorme para as lideranças em geral e na política em particular é o de lidar com expectativas. Sem criar expectativas um líder não gera esperança no seu projecto e não consegue cativar a motivação nos seus colaboradores. Mas não pode ir longe demais: se não estiver à altura das expectativas que cria em quem o rodeia, um líder dificilmente se consegue manter ao leme.
Diga-se que quem estude estas matérias tem no exemplo de António Costa um caso de estudo como provavelmente nunca se viu na política portuguesa. Costa é verdadeiramente mágico em criar expectativas, não lhes chegar aos calcanhares e sair por cima. O primeiro-ministro chegou para ficar.

Quando tomou conta do Partido Socialista, recordemo-nos, fê-lo porque Seguro havia ganhado as eleições europeias por poucochinho. Tudo tinha de mudar para que o PS pudesse vencer a direita.

Costa acabaria por perder as legislativas por muitinho, mas nada que abalasse o novo inquilino do Rato.

Costa, também já nos esquecemos, tinha um espectacular cenário macro-económico. Coisa nunca vista, pronta para ser alvo de teses de doutoramento. Deu, certamente capa de jornais: As contas, diziam os magos do PS, estavam feitas, estava tudo previsto, tudo era possível e palavra dada seria palavra honrada.

Afinal Bruxelas e todas as demais instituições, nacionais e internacionais, que tiveram de dar parecer arrasaram as contas de Centeno e companhia mal as tiveram de passar à práctica. A Costa nada tirou o sono, muito menos uma cartinha sem importância.

As contas tiveram de se refazer, mas os parceiros da esquerda estrebucharam. "Nada de ceder a Bruxelas". "Sem medo!". Costa, com o rabo entre as pernas, lá adequou o orçamento às regras europeias - que conhecia desde o início - e afinal a coisa fazia-se mesmo cedendo a Bruxelas. A esquerda já aplaude o novo orçamento. O das cedências.

Mas, ponto de honra!, nada de aumento de impostos. Que ficasse bem claro que se o anterior governo subira os impostos, este havia chegado para os baixar. Bem, parece que feitas as contas, segundo a UTAO, em percentagem do PIB a carga fiscal baixa minimamente, mas em valor absoluto sobe. As receitas do estado como bem lembrou o deputado Trigo Pereira, essas sobem em qualquer métrica, apesar de Mário Centeno se ter esquecido delas. Pior ainda, na perspectiva de quem acredita nos unicórnios da esquerda, o actual governo reorganizou as receitas do estado penalizando os impostos indirectos e aliviando os directos. Nestes beneficiou em particular os escalões de IRS mais elevados. Isso significa que este orçamento é bastante mais regressivo que o anterior. Há, em comparação com o orçamento anterior, uma redistribuição dos benefícios do orçamento de estado a favor de quem tem maiores orçamentos, a desfavor de quem ganha menos. Claro que, como expectável dos anteriores episódios, nada disto tira o sorriso da cara a António Costa.

António Costa é provavelmente das pessoas mais felizes do mundo com o seu emprego. Percebe-se porque a partir de dada altura não deveria ter, pessoalmente, muitas expectativas de lá chegar. Mas a verdade é que é imbatível a quebrar as expectativas que cria em terceiros. E a sair por cima.