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Expresso

Aos discípulos de Maniqueu

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Há uma coisa de que não tenho saudades nenhumas do meu tempo no Parlamento. Bem, na verdade há várias mas esta destaca-se. Instalou-se, e acentuou-se nos últimos quatro anos, um maniqueísmo muito acentuado no discurso político. Uma parte significativa dos deputados – para não falar de outros agentes políticos como sindicalistas e afins – emprega sucessivamente no seu discurso palavras como “mentira”, “aldabrice”, “ladrão”, entre outras, manifestando um total desprezo por ideias e visões do mundo diferentes das suas. Dum lado estão os bons, os preocupados, os solidários. Do outro lado os maus. Esta semana essa visão do mundo e esse discurso atingiram um novo, triste, ponto alto com a cretinice em torno de Quintas Colunas e de anti-patriotismos face à Europa.

Note-se que eu acho perfeitamente legítimo discutir-se a bondade ou a racionalidade económica intrínsecas às regras orçamentais da União Monetária. Que, por exemplo, se possa achar que é mais importante os estados endividarem-se para manter salários e pensões altos do que manter saldos orçamentais equilibrados para garantir a sustentabilidade das finanças públicas. Ou que se acredite que a despesa do estado possa ser o motor da economia e que portanto subir impostos é um mal menor para garantir crescimento futuro. É destas divergências que nasce o debate político e que nascem os diferentes projectos partidários.

Mas também acho que partir do princípio de que “quem está contra nós está de má-fé e está contra o país” é demonstrador de pequenez intelectual além de que, como disse ontem Miguel Morgado, é um discurso que corrói a democracia.

Não concebo o debate parlamentar nem o debate político sem respeito pelo adversário. Apesar de, por exemplo, haver todos e mais alguns exemplos históricos a demonstrar aonde leva o Comunismo, não concebo que os deputados do PC estejam, pessoalmente, interessados num estado totalitário. Acreditam, acredito eu, que a ideologia que defendem trará condições melhores para os portugueses. As consequências do que defendem foram sempre (e penso que serão novamente se puderem chegar ao poder) trágicas para quem viveu o comunismo, mas respeito-os na mesma e não concebo que estejam a conspirar para repetir a dose em Portugal. Acho também que este governo está a colocar Portugal em péssimos lençóis junto das instituições e dos investidores internacionais com a posição perdida de que partiu para as negociações orçamentais com Bruxelas, mas não acho que Mário Centeno esteja particularmente interessado num terceiro resgate - ainda que as suas acções a ele possam levar, não faltem avisos nem deva deixar de haver alertas para esse risco.

E é por isso que lamento as palavras de António Costa sobre as questões do défice estrutural na passada sexta-feira. Ao dizer que Passos Coelho havia enganado a Comissão Europeia, Costa não só desqualificou os decisores europeus – que se terão deixado enganar até Costa ter aparecido com a luz – mostrando a sua ignorância sobre o assunto, como não conseguiu deixar de enlamear o seu adversário. A questão, e desconfio que as negociações haverão mostrado isso ao governo nacional, é que um corte estrutural na despesa pública pode ser obtido por medidas temporárias. Desde que ao reverter essas medidas a poupança se mantenha. Por exemplo, os cortes salariais na Função Pública podem bem valer apenas por cinco anos, por hipótese, se se aproveitar esse tempo para descer a massa salarial do estado com ajuda a outras medidas definitivas – ocorrem-me a título de exemplo as rescisões amigáveis ou a não substituição de reformados da Função Pública. Ao repor os salários aos funcionários públicos sem compensar esse aumento da despesa – e só nessas circunstâncias – é que Costa aumenta o défice estrutural.

Para Costa, no entanto, não havia dúvida: Passos, aldrabão, estivera de má-fé com Bruxelas ou com os portugueses. Algum conhecimento mais profundo das regras europeias (alguns links úteis aqui) teria evitado que Costa se desmascarasse como ignorante delas.

A lógica pequenina detrás deste discurso ultrapassou todas as marcas chegando ao ponto, como disse bem Cecília Meireles, de nos envergonhar a todos. De repente, qualquer oposição que haja ao patriótico orçamento Centeno passou a traição à pátria. Ana Sá Lopes chegou a publicar um texto tão reles que me custa linká-lo aqui. Compara, fundamentalmente, todos os que se coloquem contra o governo a agentes infiltrados dum interesse estrangeiro. Para Porfírio Silva, Paulo Rangel é anti-patriótico porque diz aquilo de que Porfírio discorda e para o incansável João Galamba, sempre controlado nas palavras e nas atitudes, discordar do governo é fazer claque contra o interesse nacional. Que a algum destes três passe pela cabeça que do outro lado pode estar uma motivação tão nobre como a própria parece ser pedir demais.

É evidente que não devemos valorizar muito um discurso que pelo mero empregar de certos argumentos mostra ser uma conversa perturbada. Argumentos usados tipicamente por Nicolás Maduro, ou anteriormente por Salazar, Estaline ou Hitler, não podem nem devem ser valorizados. Para mim, tomo conhecimento de que a defesa de certos caminhos que considero serem mais acertados traz o risco de ser colocado na lista negra de certos indivíduos. É da vida e diz mais sobre sobre esse tipo de gentinha do que sobre mim.

Mas de facto, voltando a Miguel Morgado, esta conversa corrói a democracia. O debate político fica marcado não por argumentos ideológicos ou políticos mas pelo ataque pessoal e rasteiro. Dum lado os iluminados, os patriotas e as motivações nobres; do outro os desonestos, os agentes estrangeiros. Os maus. Pergunto-me a quem interessa arrastar-se na lama mas recordo Pinheiro de Azevedo que um dia disse o que havia a dizer sobre isto.