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Expresso

Incómodos

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Marcelo Rebelo de Sousa ganhou as eleições presidenciais, resolvendo o previsível desfecho já à primeira volta. É possível que o resultado e os vários pesos das diferentes candidaturas tenha consequências bem para lá do cargo de Presidente da República, mas isso só o tempo dirá. Fica, com certeza, a interrogação sobre o porquê de o Partido Socialista ter dado o apoio a um candidato tão pouco à vontade com o cargo a que se candidatava. Se do Partido Comunista ou do Bloco já se esperam, de alguma maneira, as habituais candidaturas focadas mais em São Bento que em Belém, com o PS isso habitualmente não acontecia. O resultado está à vista e Costa celebra a sua terceira derrota enquanto secretário-geral do Partido Socialista, depois das europeias e das legislativas. Que isto incomode pouca gente no PS é estranho, mas nestas coisas cada um sabe de si.

Já Marcelo pode bem ter de enfrentar em breve algum alvoroço que o colocará à prova: o pedido de Bruxelas para que o governo explique porque é que não está a cumprir com o equilíbrio das contas públicas no seu rascunho orçamental poderá ser o primeiro passo dum processo que obrigue Costa a mexer mais no Orçamento do que PCP e Bloco estejam dispostos a aceitar. Aliás, as palavras de Bruxelas são claras “antes de proceder neste direção [pedir a Portugal novo rascunho]”, Portugal deve enviar explicações até sexta-feira. Se não bastarem poderá então vir a rejeição do atual documento. Nada que não tenha sido colocado em cima da mesa por várias instituições nacionais e internacionais como o Conselho de Finanças Públicas ou a Agência Moody's. E por muito que não queiramos ouvir as agências de rating nunca é demais recordar que se os canadianos da DBRS decidirem baixar o rating português, os bancos portugueses passam a não se poder financiar junto do BCE com dívida portuguesa como colateral. Digamos que é uma tempestade à qual não queremos assistir, mas recordemos que em Novembro a DBRS dizia que “não espera[va] atualmente um regresso a grandes desequilíbrios orçamentais” – o ponto que Bruxelas agora levanta – nem “a reversão das reformas estruturais” - que é basicamente no que andamos desde novembro.

Ninguém poderá dizer, portanto, que foi por falta de aviso – e aqui, confesso, já estou dentro do grupo dos que se devem incomodar e incomodado estou. Portugal investiu muito nos últimos anos para equilibrar as contas públicas. O défice de 2015, com direito a sucessivas mortes antecipadas pelo Partido Socialista, revelou-se ainda melhor que o esperado. E ver agora tudo a ser deitado fora para voltar o vodoo do passado não é que só incomode. É que não sei se o país aguenta mais uma falência pública. E se há coisa de que sabemos o PS capaz é disso. Com ou sem geringonça atrelada.