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Presidenciais, seja

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Na semana passada prometi que escrevia aqui de presidenciais mas a verdade é que não sei se há muito para dizer. Talvez seja suposto ser assim. Talvez os poderes presidenciais sejam tão pouco interessantes que os candidatos, as campanhas, os debates e as eleições sejam assim e não há nada para fazer.

Acontece, claro, que os poderes do Presidente não são assim tão pouco interessantes. Eles até podem ser poucos. Mas são bons. E o problema substancial é que os candidatos e muitos jornalistas não andam propriamente interessados em saber como é que cada um se posiciona face a esses poderes. Aquilo a que assistimos é fundamentalmente uma espécie de campanha para primeiro-ministro. Isso, talvez paradoxalmente, diminui o papel do Presidente. Como nunca terá nada a decidir sobre a maioria das coisas de que fala ou que lhe perguntam na campanha, o Presidente (enquanto instituiçao) arrisca-se a passar a ser visto como um primeiro-ministro dos pequenitos: Queria, mas não pode e vive um faz-de-conta em Belém. Estou convencido que é esse o resultado garantido destas eleições.

Quanto ao resultado eleitoral também não tenho muitas dúvidas. Não porque possa haver vencedores antecipados ou porque não se decida tudo no Domingo. Mas porque o pelotão é tão distinto que mesmo o eleitorado mais enganado não teria muito por onde errar. Só dois candidatos cumprem aquilo que se pede a um Presidente: que conheceça o sistema político, a Constituição e os poderes presidenciais – senão sujeitamo-nos a ter um Presidente que é dominado pelos seus assessores ou outros parceiros – e que seja representativo e conheça o país. Não estou a dizer que alguém que ignore por completo os poderes presidenciais não possa ser um Presidente legítimo. Pode. Mas acho que não vai por falta de votos.

E muito me engano, ou tirando Marcelo e Maria de Belém mais ninguém está na corrida a sério. Mesmo Sampaio da Nóvoa que corre com a máquina do PS a puxar por ele manifesta um tamanho vazio de ideias e de noção sobre o que é um Presidente que não enganará muita gente. Engana, claro, uma certa elite que nunca percebeu como alguém como Cavaco consegue ganhar eleições. Uma certa elite para quem um “parolo de Boliqueime” que (crime de lesa-majestade!) come Bolo-Rei de boca aberta nunca poderia entrar na aristocracia republicana. Mas quem não percebeu isso também não tem grandes pergaminhos. Aliás, não serão precisos dois dedos de testa para perceber que Cavaco foi o melhor Presidente desta Terceira República: Não quis sair de Belém para São Bento, como Eanes. Não quis mandar mais do que o poder executivo como Soares e não fez cair um governo por que lhe convinha partidariamente, como Sampaio.

Mais: em comparação com o que seriam, fazendo história alternativa, Alegre ou Soares – os seus putativos substitutos – nestes anos de enorme crise é difícil não concluir que Cavaco esteve inteiramente à altura do que o país precisou. Alegre ou Soares teriam, pelo menos fizeram-no na função de espectadores que o povo lhes atribuiu, atirado óleo para cima duma fogueira que já tinha combustível de sobra. Portugal estaria hoje bem pior se assim tivesse sido. E não lhes faltava propriamente experiência política – caramba, bem pelo contrário! - mas talvez nem todos possam ser como o Vinho do Porto.

Quem parece ter percebido alguma coisa foi parte do PS ao trabalhar para que Maria de Belém avançasse. Maria de Belém conhece o país, conhece a Constituição e conhece bem o funcionamento do regime. Não seria uma incendiária nem uma irresponsável como Presidente e acho que as pessoas vêem isso. Discordo dela, naturalmente, na visão sobre muitas coisas (lembro-me bem como veio lamentar algumas das minhas palavras no meu discurso do 25 de Abril passado), mas foi sempre um enorme prazer trabalhar com ela quando estivemos juntos no Parlamento.

Os portugueses terão muitas coisas em conta no próximo Domingo. Não tenho qualquer visão tutelar sobre a opinião das pessoas mas acho que ultimamente avaliam as pessoas bem mais inteligentemente que muitos pensam. O meu voto, leva Marcelo, o resto logo se verá.