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Expresso

Ano Novo, Vida Nova

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Provavelmente é preciso um político para – verdadeiramente – apreciar o trabalho de outro político. Aliás provavelmente o mesmo aplica-se à maioria das outras actividades e profissões. Quem vive e passa pessoalmente por determinadas experiências, quem trabalha numa determinada área ou quem diariamente se debate com determinadas questões fala com propriedade de idêntico trabalho noutros. Um pedreiro apreciará o bom e o mau trabalho doutro pedreiro, um jurista saberá como ninguém admirar a argumentação de determinado parecer, e um taxista insulta como ninguém uma ultrapassagem perigosa dum colega de profissão. Ok, mau exemplo - mas é ponto assente que qualquer sindicato acha que a sua profissão é mais desgastante, exigente ou merecedora de veneração que a do vizinho.

O tempo que passei no Parlamento (ainda foram seis anos) fez-me ver com outros olhos a actividade política full-time. Não me estou sequer a queixar porque adorei poder passar por essa experiência e tenho pena que tenha acabado. Mas a verdade é que sem se gostar mesmo daquela vida dificilmente se aguenta muito tempo o que é uma actividade que nos tira tempo para a família, tempo para a carreira académica ou profissional, tempo para ir ao cinema ou tempo para dormir. Quando lá se arranja um pretexto para trocar um jantar de partido por um de amigos as conversas são fatalmente sobre isto e aquilo que alguém viu no Telejornal e achou mal, ou bem!, e quer dissecar com quem estava lá a discutir ou a votar. Quem passa além disso pela vida partidária - que no meu caso culminou com dois anos à frente da Juventude Popular – tem ainda de gerir toda uma série de pessoas e suas expectativas. Os problemas do dia-a-dia desta ou daquela estrutura. A guerrinha que está a acontecer não-sei-onde porque alguém fez não-sei-o-quê. Repito, não me estou sequer a queixar - mas queixei-me muitas vezes durante esses anos.
Quem anda à chuva, molha-se, e esta é uma chuva que só apanha quem quer: a vida de político não é propriamente uma obrigação. Talvez por isso nos passados dias a palavra que mais vejo colegas de partido endereçar a Paulo Portas – procurem nos vossos amigos do Facebook – seja “Obrigado”. De facto, quem está num partido e vê um líder entregar-se à causa tantos anos e com sucesso sente uma enorme gratidão. Compreendo que visto de fora não seja assim, há um cinismo generalizado em relação ao que aqui escrevo, mas acredito que socialistas com Soares, comunistas com Cunhal ou sociais-democratas com Cavaco sintam o mesmo.

Portas foi um jornalista brilhante e seria, com a capacidade de trabalho que todos que com ele trabalhámos conhecemos, um homem de sucesso em qualquer empresa. Escolheu a política e verdadeiramente fundou o que hoje é o CDS. E se visto de fora há muito quem não goste, a verdade é que foi líder do CDS e da Direita portuguesa porque é bom no que faz e não por algum acaso da história.

Aliás os últimos dias têm desmentido muito do que se dizia do CDS de Portas. Onde muitos escreveram haver um partido de um homem só, nascem (parece que como por magia) uma mão cheia de potenciais sucessores e nenhum, valha a minha palavra, deixaria o CDS mal liderado. Portas deu nos últimos anos tarefas políticas e palco público a muitos jovens, tendo da competência destes e da aposta daquele aparecido com naturalidade a geração de dirigentes que já nasceu depois do 25 de Abril. É uma parte indiscutível do seu legado.

Agora que é pedido a essa geração que tome conta do partido não vale, disse o próprio, ter medo – o que face ao tamanho das botas que estão a preencher não seria descabido. E, francamente, o que me parece menos importante são as caras. É antes fundamental que o CDS tenha um projecto que responda às aspirações de quem em Portugal não é Socialista. Talvez não sejam muitos – o eleitorado do CDS também não é propriamente maioritário – mas é o papel que cabe por herança fundadora desde 1974 e bem cimentada nos anos de liderança de Portas ao CDS. Saibamos deixar a outros taxas e taxinhas, regulamentações ou conduções morais ou pseudo-assistencialistas por parte do estado.

Encontremo-nos com os personalistas que acreditam na pessoa e não nos colectivos que a diluem, com quem acredita na virtude da experiência e das instituições em detrimento do experimentalismo revolucionário e com quem quer mais liberdade para si e para a sua família. Isso quer também dizer continuar, implacavelmente, a lutar para que os nossos filhos herdem um país menos amarrado à dívida do que aquele que nos legaram e por isso saber conter sempre a despesa e o endividamento que no presente podem comprar votos para benefício das gerações futuras.

Se o CDS souber não se perder naquilo que internamente por vezes separa este e aquele, mas que para quem está fora pouco importa, e se se concentrar naquilo que deve ser uma mensagem coerente e abrangente para quem procura uma alternativa ao grande espectro dos partidos mais ou menos socialistas então tenho a certeza de que chegará a cada vez mais pessoas. Será também a melhor maneira de honrar o legado de Paulo Portas que poderá perfeitamente cumprir o que vaticinei no encerramento do recente Congresso Nacional da Juventude Popular.

Essa história conto noutro texto, para já só mais uma palavra: obrigado.