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Expresso

Teoria dos transportes

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Era relativamente previsível. O PS não está disposto a governar quatro anos a pedir licença à dupla Jerónimo-Martins. Vai daí importa assegurar simpatias várias que se possam traduzir em votos logo que necessário. Vimos isso com o fim da prova dos professores: um projeto do PS, introduzido pelo PS, reconhecido pelo Tribunal Constitucional como do interesse público e uma ideia evidentemente positiva para a escola do estado (sendo a forma de implementação, como eu tudo, discutível) mas que morre quando é preciso ter a Fenprof calada. Sócrates, convenha-se-lhe isso, era mais corajoso.

Escrevo isto a propósito da novíssima causa política socialista: reintroduzir as viagens gratuitas a funcionários e familiares de funcionários da CP. Vou deixar isto assim mais comentários.

Até porque o que importa notar é que neste propósito o PS se antecipa a propostas do Bloco e do Partido Comunista. A intenção é clara: importa afirmar claramente que o PS não está só constantemente a ceder a Jerónimo e Martins mas que tem iniciativa própria no que possa assegurar alguns votos que sejam. Nem que essa iniciativa seja pedir aos contribuintes que financiem as viagens de comboio da Sra. D. Ana (e tenho todo o respeito pela senhora dona Ana) cujo marido trabalha na CP onde ganha (nas palavras deste artigo) “muito acima da média portuguesa”, entre salários e dezenas de abonos.

Sobre os transportes houve também esta semana um episódio caricato. O atual governo enfrentaria a sua primeira greve, no Metro de Lisboa, exatamente por estes dias. Que aconteceu, no entanto? A greve foi desconvocada. “É algo histórico” diz o homem que amiúde inferniza a vida aos lisboetas. O quê ao certo? Não lhe perguntaram, aparentemente, mas o número de Costa-conciliador está feito. Se acabar como com os lixeiros de Lisboa, prepare-se para receber a fatura.

Talvez os transportes possam ser um barómetro para a legislatura. O PCP, com Jerónimo de Sousa ou Francisco Lopes, tem na sua mão o sinal de mandar o governo abaixo. Quando os comunistas quiserem – nesse aspeto têm mais alavancagem que o Bloco, mas se calhar só, tendo a vice primeira-ministra Martins mais força no Parlamento – os transportes darão o sinal e entrarão em greve. Tudo aliás mais fácil se se reverterem os processos em boa hora iniciados por Sérgio Monteiro. E nesse momento estará dado o mote para o desentendimento à esquerda.

E pode não ser condição suficiente – ou seja pode por si só não bastar – e podem os eventos até desenrolar-se por outros caminhos que não este e nunca haver uma greve nos transportes nesta legislatura. Mas se vir uma greve dos transportes em Portugal, pode, caro leitor, começar a contar os dias: o governo PS não durará muito mais.