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Expresso

Da memória

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A 25 de Novembro de 1975, Mário Soares não jantou em casa. Nem sequer em Lisboa. Temendo pela vida, cito o site do Partido Socialista, foi com colegas da Comissão Permanente do PS pedir proteção ao brigadeiro Pires Veloso. No Norte, longe das mãos de Otelo Saraiva de Carvalho e de Mário Tomé, respirava-se uma calma que só chegaria à Região Militar de Lisboa depois da dissolução do COPCON e da prisão destes e de outros revolucionários que teimavam em não aceitar o jogo democrático. O Verão Quente terminaria e podia, finalmente, cumprir-se o mais importante desígnio do 25 de Abril: Democracia.

Que 40 anos depois seja o Partido Socialista, que indicaria o primeiro primeiro-ministro constitucional uns meses depois, a impedir que o Parlamento português – que exerce o seu mandato graças aos militares que impediram o golpe a 25 de Novembro de 1975 – assinale esse dia, é particularmente sintomático dos dias que vivemos. O país está de pernas para o ar e são o Partido Comunista e o Bloco a ditar o que o PS pode e o que o PS não pode fazer. Parece que está de facto instituído que são os menos votados a impor-se aos mais votados.

O que fica por saber é até onde aceitará o PS ir para não incomodar os seus novos parceiros. Renegou hoje um momento fundador da democracia e fundamental na história do PS (que dias depois, em 1975, deu uma violentíssima conferência de imprensa atacando Cunhal e o seu partido). Que renegará amanhã?

Mas será assim tão importante, tão fundamental, tão decisivo assinalar o 25 de Novembro? Provavelmente não. Mas é simbólico e talvez por ser pouco decisivo mostre ainda mais o labirinto em que Costa meteu o PS. Se a 25 de Novembro de 2015 o PS dá cobertura a Otelo por causa do PC e ao Major Tomé por causa do Bloco, o que fará nos próximos meses?

Não sei se a 25 de Novembro de 1975 Soares terá jantado tripas (espero que sim!). Em 2015, muitos camaradas seus terão comido um prato de lentilhas.