Siga-nos

Perfil

Expresso

À beira mar plantado

Da guerra santa

  • 333

Os atentados de sexta-feira em Paris deixaram o mundo civilizado, uma vez mais, em choque. Depois do ataque ao Charlie Hebdo e a uma loja kosher, repetiu-se, em maior escala, a barbárie em França.

É hoje relativamente evidente que o entusiasmo de alguns com a chamada Primavera Árabe foi prematuro. A queda das ditaduras seculares na Líbia, Tunísia e Egipto, bem como a Guerra Civil síria, não trouxe nem paz nem liberdade aos seus povos, bem pelo contrário. Pior que isso, dum ponto de vista relativamente egoísta, assistimos hoje a esses países transformados em bases de treino e de logística para grupos que actuam, no seu território e com vontade de actuar no nosso, com enorme violência.

E isso deve-nos fazer pensar em como reagir perante as novas ameaças, as tais que se projectam sobre a Europa. Se no passado a abordagem de financiar ou armar grupos locais contra ditadores/outros grupos/o inimigo do momento trouxe problemas comparáveis ou ainda maiores, talvez desta vez seja altura de não repetir o erro. O mesmo se diga da utilização de ataques à distância (mísseis ou missões aéreas, p.ex.), como na Líbia, em locais onde nem sequer um parceiro de diálogo existia. A utilização de poder militar sem nenhum tipo de controlo da situação pós-intervenção é um modelo falhado e mais que falhado.

Se a NATO estiver decidida a combater o Daesh então terá provavelmente de assegurar no terreno o apoio à criação de estruturas no pós-Daesh. Aliás foi isso que se fez com algum sucesso na Alemanha Ocidental, na Coreia do Sul ou no Afeganistão, onde o processo ainda decorre. A presença militar e alguma tutela das instituições locais parece fundamental para assegurar que depois da eliminação duma ameaça não apareça outra.

Talvez se Obama não tivesse querido retirar tão atabalhoadamente do Iraque a situação naquele quadrante não tivesse evoluído tão desfavoravelmente. (E com isto nem se quer validar a intervenção inicial no Iraque nem defender uma intervenção hoje na Síria ou na Líbia. Apenas se pretende constatar aquilo que parecem evidências quando de facto há (decisão para) uma intervenção.)

Até porque neste momento a Europa estará mais preocupada sobre como combater a ameaça cá dentro. É fatal que nos preocupemos mais com a nossa segurança do que com uma guerra na Síria, como é fatal que nos emocione mais um ataque em Paris do que em Beirute – é da natureza humana. E parece também inevitável uma coisa: numa sociedade livre nunca se vai conseguir apaziguar ou negociar com quem mata por “insultos ao profeta”.

Nesse sentido, parte do nosso combate a este terrorismo é também parte dum combate pela sociedade livre. Queremos ganhar ao terrorismo e, digo eu, não queremos perder as nossas conquistas. Isso implica não ceder às agendas radicais dos islamitas – ou doutros que tais - mas implica também não ceder a agendas securitárias cá em casa. E implica deixarmo-nos de conversas politicamente correctas sobre coitadinhos que vivem na miséria e que por isso não têm outra saída que vir assassinar inocentes para Paris. A agenda do ódio contra quem não segue uma determinada visão duma determinada religião politizada, não se combate ignorando o que está ali acima de tudo: o desprezo pela liberdade e pelo indivíduo. É valorizando a liberdade e o indivíduo que fazemos a primeira afirmação pela nossa civilização e os nossos valores.

E quem se sente mal por em Portugal, Espanha ou França, pois que se vá sentir mal para outro lado.