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Expresso

Poucochinho

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E na terça-feira caiu no Parlamento o XX Governo Constitucional. É certamente uma prerrogativa do Parlamento chumbar o programa de governo, ainda que nunca antes o tivesse feito a um governo formado pelo vencedor das eleições legislativas.

Fê-lo, encabeçado por António Costa que nem há um ano fizera cair o seu líder de partido por causa duma vitória por “poucochinho”. O mesmo António Costa que disse que não dispensaria um acordo firme para uma alternativa antes de chumbar o governo da coligação. Teria isso no bolso quando chumbou o governo da coligação vencedor.

Teria?

Um acordo não tinha de certeza. O mínimo denominador comum entre PS, BE, PCP e PEV foram três acordos. Um acordo separado com cada partido à esquerda do PS foi a melhor amostra de entendimento frentista que se arranjou. E o que não se arranjou foi um compromissozinho para um orçamento de estado que seja, ou o convencimento para que os novos amigos participassem no futuro governo. (O que levanta uma questão: BE, PCP e Verdes são da oposição – sem duvidar que como dizem os ingleses seriam most loyal - ou formam maioria com o PS?)

Fica-se bem se perceber se Costa falava a sério quando dizia que só deitaria abaixo um governo quando tivesse uma alternativa sólida. Não que Costa tem por hábito falar a sério, ele que diz tudo e o seu contrário num espantoso curto período de tempo – “o mundo mudou” dizia o outro.

Portugal também mudou, isso é certo. Nunca antes um governo foi liderado por um partido derrotado numas eleições. Já tivemos maiorias estáveis a ser demitidas – pelo sempre solícito Jorge Sampaio, o mesmo que impediu o PSD de governar nos Açores com o CDS quando juntos formavam maioria – mas se Cavaco indigitar Costa temos uma estreia absoluta. Pela minha parte que indigite. É um governo de derrotados: formalmente legítimo mas politicamente ferido de morte. Representa a sede de poder dos ungidos, os únicos que trazem a boa nova e os únicos que governam com altruísmo e pelo bem comum: a esquerda portuguesa. (Ao contrário desses fascistas encartados da direita que só se interessam em roubar salários, encher os bolsos ao capital e semear a desgraça em geral.)

Curioso no entanto, e quem assistiu a Carlos César a interpelar Paulo Portas no recente debate sabe do que falo, é ver o nervosismo do PS quando primeiro Portas e depois Passos anunciaram não estar disponíveis para no futuro ser muletas de Costa. Aliás Centeno ontem na RTP3 disse também esperar que PSD e CDS votassem a favor de certas matérias.

Começa a desenhar-se um cenário em que temos de considerar mais dois acordos para além dos três acordos escritos. Aparentemente o PS conta com o apoio de PSD e CDS sempre que à esquerda faltem os votos. Ora se é certo que habitualmente os partidos votam no que concordam também é certo que estamos perante situações absolutamente excecionais e que já se fez tábua rasa de todas as tradições deste regime da Terceira República. E deverão PSD e CDS dar a mão a um governo politicamente ilegítimo só porque Costa não consegue sequer cumprir o que prometera e aparentemente não tem uma maioria estável para governar? Um governo que só existe porque o PS deu a mão (ou aceitou a mão, não se percebe bem quem tem o braço mais comprido nisto) à extrema-esquerda estalinista defensora dos regimes da União Soviética ou da China maoísta. Penso que os eleitores da coligação não querem que os seus votos sirvam para isso.

Feitas as contas, lidos os acordos, Costa tem poucochinho. Muito poucochinho. Será, Cavaco querendo, um primeiro-ministro poucochinho. Perdeu eleições que todos diziam que ganharia nas calmas e agarrou-se à cadeira. É nisso que se transformou o secretário-geral do PS. Ainda chega a primeiro-ministro.