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Expresso

Quem ganha, perde; quem se combate, ganha

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O PS é um partido de esquerda? Não é, se for Jerónimo de Sousa a responder. A 15 de setembro dizia claramente que CDS, PSD e PS eram “farinha do mesmo saco” e que como tal o PCP não seria uma peça decorativa num executivo socialista. Mais: a 13 de julho Jerónimo até achava que “o que o PS propõe é ser Governo, mas no essencial é para continuar a mesma política”.

Certamente do Bloco terão vindo declarações mais elogiosas, tão amigos que andam. Sim? Não. Catarina, não sei se desesperada se sincera, pediu a cinco dias das eleições que o PS dissesse alguma coisa de esquerda. “Era mesmo bom...” Esse discurso aliás destaca-se por a líder do Bloco se lamentar que o PS nunca respondera ao seu repto de fazerem governo juntos. Costa não quis nunca admitir isso em campanha, como Catarina Martins então bem lembrava. Resta saber quem terá beneficiado disso eleitoralmente.

Porque de facto a questão que se coloca não é se é legítimo um governo de perdedores encontrar maioria no Parlamento. É legítimo. Mas era, numa determinada configuração à esquerda, expectável? Caberá aos deputados eleitos interpretar o voto do qual são depositários, e ao Presidente da República aceitar essa interpretação. E, sendo remotamente pessoa interessada (eleitor e militante), para mim é claro que não.

Não faltam agora dirigentes do PS que explicam que PC e Bloco são afinal parceiros confiáveis e respeitáveis (antes das eleições um voto neles era um voto na direita), e que até alinham com a Nato, o tratado orçamental e dívida pública. E isso é bonito, significa que o PS consegue ter boa capacidade de convencimento. Mas acontece também que a política orçamental europeia não é um mero detalhe do programa de PC e Bloco. Na verdade são as suas propostas políticas mais estruturais: Portugal não tem uma dívida sustentável, tem de a renegar, sair do Euro e depois começar com toda a sua soberania reposta a caminhar para o socialismo real. Podem ora os dois partidos de fora do arco da governabilidade (e é exatamente por terem propostas destas que o estão) ser resgatados por um PS desesperado pelo poder, dizendo “afinal isso não era assim tão importante”? Poder podem, mas não é politicamente sério nem legítimo.

Vamos assistir a um governo ilegítimo? Talvez. Na verdade o que o PS quer nem é levar PC e Bloco para o governo. O PS quer governar sozinho, e os dois partidos mais à esquerda não se parecem incomodar muito, contando apenas com esses nos momentos chave da governação. Sempre que isso não der, contará com a malvada direita – preferencialmente nos impopulares PECs et.al. O que o PS quer, portanto, é um governo ainda menos minoritário que o dos partidos que ganharam as eleições. E quando deixar de funcionar, Costa ainda poderá apontar a PC e Bloco as culpas por ter caído o revolucionário governo da esquerda que deita muros abaixo – à espera que o eleitorado lhe dê a vitória. É expectável que o eleitorado compre a narrativa? Duvido. Os portugueses mostraram perceber bem a fibra de que é feita António Costa e não lhe compram narrativas há meses. Aliás, Costa continua a desmascarar-se: dois dias depois de ter dito que tinha tomado conhecimento de “surpresas desagradáveis” nas contas do estado, já firma acordos para disparar a despesa pública ou cortar na receita. Se nos lembrarmos de 2009 e pensarmos que Costa pode estar a contar com eleições ainda este ano talvez venha à memória o pior do Socratismo. A surpresa desagradável que Costa conhece, afinal, é na carteira dos portugueses.