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Expresso

Encruzilhadas

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Os resultados das eleições legislativas e a subsequente formação de governo animam o tempo político presente e há até quem queira inaugurar um novo tempo constitucional, em que o governo é formado por quem perde. Não é que não fosse impossível, mas é, digamos, inovador.

O resultado eleitoral até é interessante e presta-se às mais diversas interpretações. 60% do eleitorado, garantem uns, rejeitou a coligação e o governo em funções. É uma leitura possível. Outra é que 80% do eleitorado apoia a troika nacional, nas palavras dos comunistas. Ou então que 90% do eleitorado queria ver Catarina Martins longe do governo. Outra ainda, mais do campo do socialista, é que 70% votou na coligação de direita. Enfim, não falta o que ler na complexa mensagem que os portugueses deixaram ao Presidente. Claro que quem acha que os votos na coligação foram votos de “gente estúpida” (o termo “estúpido” é do socialista Correia de Campos, não é meu) se vai inclinar mais para uma determinada leitura, o que é compreensível. Na minha opinião, no entanto, deveríamos tratar os portugueses com respeito e não com este desdém. (Em particular, visões parciais do resultado prestam-se sempre a cenários por definição parciais, e incompatíveis entre si.)

A batata quente está de facto com o Presidente da República a quem cabe apontar o primeiro-ministro, e também aqui tivemos já de tudo. Por exemplo Mário Soares em 87 rejeitou um governo com apoio maioritário no Parlamento. Sampaio em 2005 mandou um governo absolutamente maioritário para casa. E nos quatro anos que passaram não faltaram socialistas (outros, que agora não sei precisar o que disseram Soares e Sampaio) que pediram a Cavaco que demitisse a maioritária coligação. Parece portanto que também aqui há de tudo para todos os gostos – pelo menos quando o Presidente ou o interesse é socialista. Mas há uma coisa que ninguém nos tira e que é a prática constitucional (e quem andar a ler acórdãos do TC sabe bem que a prática constitucional vale tanto quanto o que lá está de facto escrito) e essa dita que quem ganha forma governo. O PS, opondo-se a isso no Parlamento, pode tentar outra solução? Pode, agregando os parasitas e estalinistas (palavras suas, note o leitor) que estão à sua esquerda, mas tem de assumir isso – e tem primeiro que chumbar o governo que Cavaco deverá indigitar se seguir a prática constitucional.

No fim de tudo até acho que Costa não quer a Frente Popular (o termo é do Comintern, não é meu) mas sim uma habilidade: quer rejeitar o governo da PàF e apresentar-se minoritariamente (até porque BE e PCP, compreensivelmente face ao seu eleitorado e discurso, também não estão propriamente entusiasmados em ir para o governo) a Cavaco para governar tolerado ora à esquerda (sobretudo a início) ora à direita (sobretudo sempre que seja impopular e/ou para cumprir os Tratados). Uma espécie de governo Sócrates II mas com motor de arranque frentista – Sócrates não precisou disso porque, vencidas as eleições, foi naturalmente empossado primeiro-ministro. Com isso Portugal ficará com um governo minoritário, até mais minoritário que um da coligação vencedora, liderado pelo grande derrotado das eleições, numa tolerância parlamentar colada com o cuspe duma Frente Popular que nem o chega a ser. Está visto que é forte, estável e duradouro.

É que o problema de Costa é tão evidente que teve de o várias vezes na conferência de imprensa após a segunda reunião com Passos e Portas: está a jogar o seu futuro político. Mas, já agora, qual o seu passado?

Costa foi quem declarou aos quatro ventos que abateu a dívida da Câmara Municipal de Lisboa quando na verdade tal só aconteceu porque o governo pagou terrenos que a CML detinha no aeroporto – operação integrada na privatização da ANA que teve a oposição firme de... António Costa. Costa é o político que manda SMSs a jornalistas em tons incríveis por discordar da sua opinião, que tem um fanico quando é abordado na rua ou que faz insinuações em directo a tentar pressionar um jornalista que coloca questões aparentemente incómodas. Foi Costa que fechou um acordo com Seguro, para depois rasgar esse acordo quando lhe conveio, mas acumulando a direcção do PS com o mandato na Câmara como antes excluíra, antes de finalmente sair. Quem teve de sair, mas da vida do PS, foi Sampaio da Nóvoa com quem Costa andou nas palminhas e a quem deu todo o gás, para depois o deixar cair vergonhosamente. Costa é mesmo quem pediu a cabeça de Seguro por ter ganho por “poucochinho” - perdendo por mais que “poucochinho”, agora, nem pensa nisso. Longe está a maior derrota de sempre da direita.

Somos sempre nós e as nossas circunstâncias, suponho. E neste caso, mesmo que para isso se deite abaixo um governo que teve a maioria dos votos expressos, a circunstância parece ser tentar uma quadratura do círculo (a piada faz-se a si mesma) exdrúxula. Independentemente do que seja melhor para país e da promessa que fizera de não apoiar uma maioria negativa.

Mas que isto é mau para o país, Costa já percebeu. Não é por acaso que, em três entrevistas que deu a seguir às eleições, tenha dado três a órgãos de comunicação social estrangeiros. E o mais engraçado parece ser o tom das entrevistas: “Não somos o Syriza: somos contra a austeridade mas faremos um governo respeitador das responsabilidades com o exterior”. Tsipras não diria melhor, mas esse, claro, é o Syriza. Curioso é só como é que Costa pensa que tirará dividendos para o PS duma situação destas. Todos os dias se levantam novas vozes de insuspeitos eleitores do PS a dar nota de que não esperavam esta atitude de Costa – como aliás ninguém esperaria e não foi por falta de pergunta do lado da coligação, nomeadamente, sobre se Costa se apoiaria no Bloco ou no PC num cenário pós-eleitoral. Costa sabia que perderia votos se dissesse que sim e deixou essa pergunta sem resposta. Agora perderá certamente uma fatia simpática do eleitorado moderado que não quer ver um governo tolerado apenas pelos adversários habituais do Partido Socialista – que tudo farão para sair desta situação com ganho eleitoral.

E assim caminhamos alegremente. Passos deu ontem um passo importante ao afirmar claramente que não alimentaria reuniões de faz-de-conta. O país precisa de clarificação. E se da parte do PS essa é de que não encontra um caminho de dar corpo a 80% do eleitorado que deu confiança a quem em 2011 apoiou o programa de ajustamento então que o assuma. Não é que o país agradeça, mas às vezes mais vale uma notícia má que notícia nenhuma.