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Expresso

Cenários, maquilhagem e lobos na pele de cordeiro

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Se há três, há dois ou até há um ano alguém dissesse que PSD e CDS estariam sequer a disputar a vitória nestas eleições legislativas, seria – e compreensivelmente – brindado com uma saudável gargalhada.

A quatro dias das eleições vale a pena perguntar porque é que isso mudou e porque é que hoje podemos, sem nos expor ao ridículo, acreditar que a vitória da coligação Portugal à Frente é apenas uma questão de dimensão. Vale a pena perguntar e tentarei dar resposta aqui na semana que vem.

Mas perante esses cenários colocam-se outro tipo de questões, do tipo constitucional, que não são de somenos, sobre quem deve formar o próximo governo. Não é que a nossa Constituição não diga como se resolvem os imbróglios que um cenário pós-eleitoral possa colocar ao Presidente da República – nem que ele se “engane” à primeira – mas porque podem ocorrer cenários a que não estamos habituados.

Na verdade Portugal nunca teve um governo que não fosse indicado pelo partido ou coligação mais votado nas eleições legislativas – mas também nunca teve um Parlamento em que uma maioria relativa encontrasse uma oposição unida disposta a quebrá-la com um projeto alternativo. Nesse sentido pode haver uma novidade nas eleições do próximo dia 4 de Outubro: a coligação PSD-CDS pode ganhar as eleições (é o que sinto nesta reta final de campanha) mas pode ser impedida de governar por uma união pós-eleitoral de PS, PCP e BE. E Verdes, claro.

É isso ilegítimo? Não necessariamente. A Constituição permite-o e seria realizável. Mas importa que resulte claro da campanha e dos programas que cada partido leva a votos. E o que muita gente hoje precisaria de saber é:

“O meu voto no PS leva o PCP para a frente do ministério da Economia?”

“O meu voto no PS põe Catarina Martins na frente da Segurança Social?”“Heloísa Apolónia acaba Ministra da Educação se eu votar em António Costa?”

E penso que a maioria das pessoas não está à espera de deixar o país nas mãos de Louçã, Jerónimo ou afins quando vota em António Costa – e por isso precisa de saber se o PS vai abrir portas para que isso aconteça.

Do que tenho a certeza, já agora, é do sentimento com que os portugueses maioritariamente vão votar. Tenho a certeza que vamos maioritariamente votar a pensar se o país está pior que há quarto anos – e nesse caso votamos num partido da oposição – ou se o país está melhor – e aí damos um voto de renovação à atual maioria governativa.

Acontece que o PS se enganou ao pensar que teria caminho fácil ao convencer os portugueses de que o país estava pior e que portanto era preciso voltar ao PS e às suas políticas no governo. Porque hoje, em Portugal como noutros países, sabemos que não conta só a fotografia do imediato – e mesmo essa está muito melhor hoje que no tempo de Sócrates – mas conta também o rumo e a trajetória. E essa não falha desde que em 2013 finalmente o país endireitou a sua rota: aponta para melhor, muito melhor. E não precisamos da extrema-esquerda no governo para manter esse rumo. Antes pelo contrário.