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A sério que a três semanas das eleições estamos a discutir quem é que chamou a Troika. A sério que é o PS a alimentar essa discussão? (Bom, se é essa agenda mediática, não fujamos dela. E deixem-me, caros leitores, fazer uma coisa feia que é usar de argumentos de autoridade.)

Disse Mário Soares, antigo primeiro-ministro, antigo Presidente da República e visita regular ao número 44, perdão, 33:

Tive uma discussão com ele gravíssima, porque queria que ele pedisse o apoio e ele não queria. Falei muito com ele durante muito tempo, duas horas ou três, discutimos brutalmente mas amigavelmente, eu a convencê-lo e ele a não estar convencido.”

Revelou ainda que seria Teixeira dos Santos a convencer o primeiro-ministro. Esse convencimento custou mais, como todos sabemos.

Tornei muito claro ao primeiro-ministro que teríamos de o fazer [pedido de resgate] e que esse pedido era algo que me parecia 'fatal como o destino'” – como o destino… Teixeira dos Santos, claro, além de socialista foi ministro de estado e das Finanças ocupando a pasta das contas públicas mais que qualquer outro ministro em Portugal.

Claro que mesmo o pedido de Teixeira dos Santos vinha tarde de mais. Um ano antes já o comissário europeu responsável, Olli Rehn, tinha dificuldade em convencer o governo português.

Tivemos discussões com o ministro das finanças de Portugal muito, muito antes de Portugal ter solicitado um programa, porque era bastante claro já em determinado momento de 2010 que, a menos que Portugal tomasse uma acção forte em relação a reformas económicas e a consolidação orçamental, iria enfrentar custos de financiamento proibitivos e enfrentaria a ameaça de ficar de fora do financiamento nos mercados, o que acabou por acontecer no início de Abril de 2011 e conduziu ao programa.”

O famigerado PEC4 que, recorde-se, era em termos de metas muito mais exigente que o Memorando estava portanto, pelo menos, um ano atrasado.

Por fim a autoridade do próprio, atual, primeiro-ministro. Passos Coelho escreveu, em Março de 2011, uma carta confidencial a Sócrates, que o Público ontem publicou. Curiosamente, o Público conclui desta carta que Passos “exigiu” a presença da troika em Portugal. Na verdade, Passos escreveu que:

Atenta a especial sensibilidade desta matéria e as gravíssimas consequências que decorriam para o nosso país de qualquer eventual risco de incumprimento, é essencial que o Governo garanta, com toda a segurança e atempadamente, adoção das medidas indispensáveis para evitar tal risco. Nestas circunstâncias, entendo ser meu dever levar ao seu conhecimento que, se essa vier a ser a decisão do Governo, o Partido Social Democrata não deixará de apoiar o recurso aos mecanismos financeiros externos, nomeadamente em matéria de facilidade de crédito para apoio à balança de pagamentos.

Não percebo bem quem a terá feito chegar ao Público, nem com que intenções – ainda que seja clara a intenção de quem a chama para a capa com um título que não bate certo com o conteúdo. Para a campanha do PSD e do CDS, claro, é um dado bem-vindo mas a questão que coloquei ao início mantém-se: é mesmo isto que estamos a discutir a três semanas das eleições?