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Narrativas

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Quando fazemos política é bom ter um fio condutor debaixo do qual se analisa a realidade e com o qual se meçam cenários para avaliar opções. Daí a montar uma narrativa discursiva vai uma distância que nem sempre é bem entendida pelos agentes políticos.

Ter um fio condutor para avaliar as escolhas não é mais do que aquilo que, estranhamente, alguns declararam morto: seguir uma ideologia. Uma mundividência, um quadro de valores, enfim, um pensamento para lá do circunstancial. Se as ideologias morreram então morreu a política séria e acabou qualquer discurso sindicável. Coisa diferente é montar uma narrativa sobre a realidade e martelar os factos para, aparentemente, encaixarem nessa narrativa.

O que os tempos modernos, a meu ver, mostram, é que quem se perde numa narrativa obcecada perde a adesão à realidade e acaba por perder credibilidade, apoio popular e votos. É o que acontece desde tempos não tão modernos com as ideologias marxistas, trotskistas e de outros sabores comunistas. Ignoram a importância da realização pessoal e dos incentivos à ação humana que se emaranham numa narrativa que essencialmente é rejeitada pelo grosso das pessoas. Mais no presente parece ser o Partido Socialista que enveredou numa narrativa e não se conseguindo libertar dela, entrega de bandeja umas eleições que pareciam ganhas.

É que o problema do PS é ter-se convencido que Portugal hoje estaria sedento dos tempos em que Sócrates mandava e que bastaria manter uma narrativa de “estamos piores” para convencer o eleitorado, para que lhe caísse o poder no colo. Infelizmente - para o PS, felizmente para o país – a narrativa não cola.

Portugal hoje está desde logo com uma trajetória positiva em todos os indicadores que anteriormente estavam em acentuada degradação: défice, dívida, emprego, desemprego, indicadores de confiança, crescimento do PIB, etc., etc., tudo está hoje a evoluir de maneira melhor do que estava quando este governo tomou posse. E o que é curioso é que, havendo uma convergência tão coerente, em que todos os indicadores apontam no mesmo sentido, o PS insista em fúteis tentativas de descredibilizar a realidade. Certamente teria a vida mais facilitada se houvesse margem para encontrar um ou outro indicador que se diferenciasse da tendência dos outros. Mas não há.

É que mesmo que quiséssemos acreditar numa conspiração do INE, p. ex., para mascarar os números do desemprego, como explicar que os do crescimento da Economia ou os das exportações, ou os da confiança dos empresários – todos aferidos de forma independente e por metodologias diferentes – sigam no mesmo sentido?

É porque não há conspiração. O défice estava descontrolado mas hoje há superavit primário. O desemprego cresceu em todos os anos de governação Sócrates, hoje desce há dois anos. Os índices de confiança estão a níveis não vistos há anos. As exportações bateram em Julho o seu record de sempre (e a balança de bens e serviços ao contrário do que Catarina Martins disse está mesmo positiva) e mesmo a dívida pública, que prejudicada por engenhosas ocultações agora se pôs a nu, estabilizou há dois anos e desce serenamente desde então.

Perante estas evidências, uma narrativa que apostava no falhanço dos portugueses está ela mesmo condenada a ser derrotada. Portugal pode mais, é certo, mas o governo deve agir com prudência e realismo. E para isso é preciso conhecer a realidade – não viver numa narrativa falhada.