Siga-nos

Perfil

Expresso

À beira mar plantado

Da crise dos refugiados

  • 333

As imagens que chegam de vários pontos do Mediterrâneo são chocantes e mostram uma realidade que provavelmente está escondida por detrás de tantos outros conflitos e dos seus refugiados. No tempo das máquinas fotográficas omnipresentes, este entra nos pela casa dentro

A guerra é uma coisa horrível. É banal dizer-se isso, mas lembro-me de em criança ouvir o meu pai falar da Segunda Guerra Mundial e de como a tinha vivido na Alemanha e da carga da palavra. Guerra (não uma, “a” guerra, só havia uma na vida dele) era uma coisa terrível. Fome, corridas para a cave, casa ocupada, armas apontadas, infâncias vividas em terror – tudo acompanhado da normalidade com a qual acabamos fatalmente por nos acomodar à realidade, incompreensível para quem ouve as histórias 50 anos depois.

Hoje não são precisas histórias. As imagens quase em directo do teatro de guerra e a barbárie do estado islâmico estão no Telejornal na versão familiar e na Internet na versão crua. Mas são sobretudo as imagens da Europa que chocam. Famílias com crianças de todas as idades fogem na procura dum futuro chegando em condições inimagináveis ao continente europeu. Na Áustria um camião transporta 71 refugiados mortos – assassinados, diga-se, asfixiados pela organização criminosa que os transportava – na Turquia dá à costa uma criança de três anos morta. Perante a realidade e a crueza das imagens – como olhar para um corpo pequenino sem sentir um arrepio? – a Europa pergunta-se o que pode fazer.

Muito friamente penso que tudo o que possamos fazer cá não passará dum paliativo. Estas crianças, estas famílias têm uma terra, uma cidade, uma aldeia de onde fugiram e de onde continuarão a fugir se o que as espera lá for mais terrível do que se fazer à estrada para a longínqua e desconhecida Europa. O que não quer evidentemente dizer que não tenhamos um dever moral de proporcionar o mínimo de condições a quem – literalmente – dá à nossa costa. São seres humanos numa situação particularmente frágil e que devem ser tratados como a dignidade humana exige. Mas sem uma solução dos conflitos originários temo bem que continuemos a ver as imagens que tanto nos chocam. E aqui começo a ter sérias dúvidas sobre o que fazer.

De facto, o que apetece é enviar uma força da NATO para os territórios mais afectados pelos conflitos para combater Estado Islâmico. Uma força blindada e mecanizada com o apoio aéreo que poderíamos projectar não deveria ter problemas face a um grupo que muitas vezes não passa de bandos armados com armas automáticas, montados em todo-terrenos – eficaz contra civis, fraco num campo de batalha moderno. E vale a pena mesmo perguntarmo-nos se não temos de alguma maneira uma obrigação moral de o fazer, perante os crimes contra a humanidade aí perpetrados. Acontece no entanto que tudo parece indicar que o aparecimento desta máquina de crime só acontece devido a vazios de poder deixados exactamente por anteriores intervenções do Ocidente para retirar do poder ditadores (Saddam no Iraque, mas Kadhafi na Líbia também ocorre) cujas façanhas no campo da maldade parecem empalidecer face aos sucessores. E a história está tão preenchida de exemplos análogos que poderemos ter a certeza de não podermos prever as consequências duma intervenção desse tipo. A alternativa de armar um ou outro lado do conflito também me parece suficientemente testada e falhada para ser seriamente ponderada.

Então o que nos resta? Seria uma pessoa bastante mais feliz se soubesse a resposta. Não sei. A solução intervencionista parece ser o repetir do que provocou o conflito. Poderá desta vez ser a solução correcta? Ou devemos em alternativa concentrar-nos em resolver as consequências que dão à costa e deixar as causas resolver a si mesmas. Por quanto tempo?