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Expresso

Emprego e desemprego: o INE explica tudo

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A publicação, pelo INE, dos números definitivos do desemprego de Maio e dos números trimestrais do segundo trimestre vieram, na linha do que vinha sendo publicado, confirmar uma tendência muito boa no nosso mercado de trabalho. Boa notícia? Aparentemente não.

De todos os lados se ouviu que esta, a mais baixa taxa de desemprego dos últimos quatro anos, era afinal outra coisa qualquer. O PS falou da emigração e de estágios. O Bloco juntou-lhes os desencorajados e os subempregados e o PCP deu-lhes um toque neo-realista enquanto se atirava à credibilidade do INE. Algum nervosismo geral que se compreende: a narrativa da esquerda é desmontada pelos dados oficiais do emprego.

Mas vale a pena, em primeiro lugar, assinalar que os números do desemprego continuam ainda muito altos. Que não haja dúvida disso. E provavelmente todos conhecemos - caramba, se conheço! - alguém que tenta e não consegue encontrar ocupação. Mas se é para irmos para o debate público com base em casos particulares ou em palpites, então fechemos o INE e poupemos essa despesa. Os inquéritos que o INE faz são os números oficiais, transmitindo uma versão estatisticamente validada da realidade portuguesa.

E o que nos dizem esses números oficiais (as referências são a esta folha de cálculo)?

Que podemos tirar a emigração da equação. Se preferirmos olhar para o número de pessoas empregadas, em vez de olhar para taxas que são percentuais e portanto influenciáveis pela redução da população total, então os dados são claros: há mais 66 mil portugueses com emprego do que havia neste trimestre do ano anterior, e mais 103 mil do que no trimestre anterior (quadro 2, linha 23).

Estamos a falar de pessoas em concreto com mais emprego. Pessoas reais, que vivem em Portugal.

Talvez, como disse o PS, o aumento no emprego esteja em contratos de de uma semana que são feitos "apenas para tirar desempregados das estatísticas", nas palavras de Ana Catarina Mendes. Terá saltado as linhas 43 e 44 do quadro citado. Lá se pode ler que há mais 85 mil empregados a tempo completo entre trimestres homólogos e mais 112 mil (!) em série. Correspondentemente há uma redução de 19 mil e 9 mil nos contratos a tempo parcial.

Estará o gato nos estágios? Nos contratos emprego-inserção? Dificilmente. O que o INE nos diz é que, em termos homólogos, há mais 66,5 empregados com contratos sem termo do que no trimestre homólogo ou mais 28 mil que no trimestre anterior. Trabalhadores, portanto, que estão nos quadros das empresas e não em situações precárias de qualquer tipo como alguns pensam. Nem em estágios ou parecido.

Certamente foi o Bloco que acertou e os desempregados escondem-se nos inactivos ou no subemprego. Não. Há menos 8100 inactivos em termos homólogos e menos 22500 em cadeia (Quadro 3). No subemprego são cerca de 9000 a menos nos dois casos (QP 8).

O que se conclui então duma leitura atenta dos quadros do INE?

Que Portugal mantém uma recuperação que iniciou sensivelmente no início de 2013. Que até lá de facto se manteve a tendência que vinha dos governos Sócrates de decréscimo do emprego e de aumento do desemprego, mas que a partir daí se iniciou uma notável recuperação. E que desde então há mais 225 mil empregos - o que como é fácil de ver não pode ter nenhum efeito da emigração. E que esses empregos são esmagadoramente criados com contrato e não no emprego por conta própria - o chamado recibo verde. Leituras diferentes não são possíveis com os números do INE. Mas é mesmo incompatível com a percepção geral da economia. Como explicar que a Economia portuguesa, que cresce há dois anos, não produzisse empregos? Ou como manter um discurso sobre a emigração justamente nesse cenário de crescimento e com a criação de emprego que se verifica? E por fim, como dizer que agora os números do emprego se devem a medidas de estágios do governo, quando se esquece que governos do PS passaram 500 000 portugueses pelo Programa Novas Oportunidades (e sendo certo que nem todos saíram das estatísticas do desemprego por isso, todos os que participaram em acções de formação no programa passaram a temporariamente inactivos)? Quem é que acredita que desde 2013 o governo português esteja a aumentar o número de portugueses em esquemas de estágio ou parecidos? O mesmo partido que diz que o governo destruiu a formação de adultos?

Os números do INE devem ser vistos com calma e seriedade. Contêm resposta para quase todas as dúvidas de quem quer saber mais sobre o mercado de trabalho. E são os números apurados pela mesma instituição que os apurava quando Sócrates mandava no governo. A UGT não teve grandes dúvidas e aplaudiu a descida do desemprego mostrando confiança nos dados oficiais. Grandes declarações tiradas do ar sem nenhum respaldo nos dados, devem ser encarados como azia eleitoral.

Sai uma dose reforçada de Rennie para a mesa do PS.