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Expresso

A dolorosa morte do populismo da esquerda radical grega

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Apesar de ter pensado que semana passada havia terminado o tema da Grécia, é impossível não voltar ao tema. Desde então a Grécia conseguiu chegar a acordo com o Eurogrupo para um programa de assistência no valor de 85 mil milhões de Euro – mais que o nosso único programa, este terceiro grego – que deita por terra tudo o que era compromisso eleitoral do Syriza bem como o resultado do referendo. Está mal? Mais ou menos.

O Syriza candidatou-se e ganhou as eleições com um programa que já aqui classifiquei de irrealista. As suas promessas – todas – dependiam de condições que não controlavam mas sim da vontade de agentes exteriores, nomeadamente os credores representados na Troika. Apesar disso ser facilmente compreensível, não faltaram candidatos a colar-se à sua vitória: cá, Bloco, PCP e até o PS declararam coisas tão extraordinárias como “a vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha” quando era evidente que o programa do Syriza não tinha qualquer realismo.

Os meses que se seguiram foram duros para a economia grega. A falta de confiança que o governo grego imprimia com as declarações de vários responsáveis – à cabeça o inenarrável Varoufakis – afundaram uma economia que no fim de 2014 crescia como mais nenhuma da zona Euro! Yanis Varoufakis destacou-se por episódios que demonstraram um enorme amadorismo para o exercício de funções governamentais e alguma falta de boa formação. Destaque-se o episódio em que negou – sem se perceber porquê, o episódio não era grave – ter feito um gesto feio numa conferência ou o momento em que garantiu – já num acesso de loucura – que a Grécia havia guardado seis meses de combustíveis e de medicamentos e estaria pronta para enfrentar quaisquer consequências do referendo. Referendo que, note-se, levaria à demissão de varoufakis se ganhasse o Sim. Ganhou o Não e Varoufakis foi-se.

O momento é duro e difícil para Tsipras. Curiosamente ou não foi o governo grego o primeiro a ignorar no discurso e nas acções o resultado do referendo. Não sei se isso indicia arrependimento se não tinha havido avaliação das consequências para a Grécia dum impasse como as que viveram após a convocação desse referendo. Certo é que foi imediato o regresso à mesa das negociações. Dessa saiu o conhecido acordo.

Faz agora mal o governo grego por quebrar todos os compromissos eleitorais e os do próprio referendo? Penso que a resposta não é trivial mas julgo que olhando para o interesse dos gregos – e é para interpretar esse que se elege um governo – é bom de ver que o Syriza faz bem. Aliás, o próprio Tsipras reconhece, ainda que dê o dito por não dito, que não há alternativa.

O que todo este processo mostra é que ao fim e ao cabo um partido populista como o Syriza não pode ser levado a sério no seu discurso. Creio que a maioria dos portugueses têm a noção que PCP ou Bloco, se fossem alguma vez eleitos governo, terminariam da mesma forma. Já mais curiosa é ver a tentativa inicial do PS em se colar. Porque no fundo isso queria dizer que o PS reconhece credibilidade ao Bloco e poderia encontrar nele um parceiro ou uma inspiração para o governo. Será?

O que agora resta apurar é se Tsipras consegue não perder o seu partido - e o país - com este volte-face. Estarão militantes e deputados preparados para acreditar no seu líder quando diz que não há alternativa? É que é óbvio que há sempre alternativa. O que Tsipras descobriu, é que ela é pior.