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Expresso

O estado da nação – grega

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Domingo a Grécia falou. No referendo-relâmpago convocado pelo governo Syriza os gregos disseram Não. A quê, prometia ser a questão essencial da semana. Acabou por não ser

Referende-se!

Recorde-se alguma da retórica pré-referendo. Serviria, dizia Varoufakis, para ganhar uma posição negocial mais forte. Não colocaria a Grécia numa posição de abandonar o EuroLevaria a um acordo em 48 horasE jamais, jamais, o governo grego acederia a controlo de capitais. Pois.

Como é evidente, um referendo como acto de soberania que é, não pode merecer grande comentário – ainda que o do Conselho da Europa (que não é nenhuma instituição da União Europeia mas uma bem mais antiga) seja esclarecedora – mas comparando o que foi dito durante a curta campanha para o referendo com a realidade pode-se pelo menos concluir que houve uma grosseira avaliação das conclusões do referendo por parte dos seus iniciadores.

Hoje a Grécia está pior. Pior que quando o seu actual governo tomou posse e pior que quando convocou o referendo. O ministro-maravilha Varoufakis recebeu o país que mais crescia na Zona Euro para o devolver à recessão. Conseguiu passar de taxas de juro, altas é certo, de 5% para a falta de financiamento total. Contas públicas que apontavam para um superávit primário estão hoje em pior estado que as nossas do tempo dos governo Sócrates. Varoufakis ficará para a história como o ministro que no menor espaço de tempo mais destruiu na economia dum país ocidental Não há memória de score sequer remotamente próximo. E recorde-se, ainda, pelo insólito, as suas declarações de que o governo grego haveria acautelado seis meses de combustível e quatro de medicamentos. A pergunta é evidente: com que dinheiro?

Mas se no plano interno as coisas correram mal, mesmo no plano externo não se percebeu o racional da posição negocial do Syriza. Cedo hostilizou todos os parceiros europeus e os potenciais aliados no Eurogrupo. Um caminho errático entre alguma presunção e toda a falta de compromisso não lhe valeram propriamente aplauso.

E se alguém pensasse que o Não no referendo traria facilidades negociais para os gregos, esta semana mostraria o engano no raciocínio. Tudo indica – mas a história destes seis meses gregos ensinam-nos a não acreditar em nada – que a haver acordo ele será ainda mais exigente do que todos os que o Syriza rejeitou anteriormente. Sobretudo, não se conseguiu encontrar nenhum novo apoio para o Syriza - de nenhum país, de nenhum governo. Talvez Costa, que tanto se entusiasmou com a vitória syrizica, se fosse primeiro-ministro, destoasse no coro dos governos europeus. Mas ficaria mesmo sozinho. Mesmo entre socialistas.

Amigos da onça?

Um dos socialistas mais importantes no concerto europeu, o alemão Martin Schulz, foi talvez o mais gráfico: o referendo grego versava, na sua opinião, sobre a permanência grega na Zona Euro e não tinha nenhuma confiança no governo grego. Ao Não seguir-se-ia a saída grega do Euro. O seu colega de partido Sigmar Gabriel, igualmente parceiro do Partido Socialista na Europa, reagiu ao referendo, e nas palavras do Financial Times, de forma ainda mais dura que Merkel ou Schäuble: «Tsipras queimou as últimas pontes que permitiriam um acordo entre Grécia e Europa», disse.

Outro importante socialista europeu, o presidente do Eurogrupo Jeroen Dijsselbloem, foi taxativo: "a acção do governo grego degrada a situação da Grécia". Já Matteo Renzi, primeiro-ministro italiano, coqueluche da esquerda europeia e igualmente parceiro europeu de António Costa, não quis deixar de dizer que seria “impensável” que fossem os italianos a ajudar a Grécia a manter e a sustentar um sistema de pensões mais generoso do que o italiano. O vice-primeiro-ministro eslovaco, o socialista Peter Kazimir, reagiu de forma lacónica ao resultado do referendo: “a rejeição grega de mais reformas não pode significar que vão receber dinheiro de forma mais fácil”.

Outros exemplos haveria. Socialistas de todos os pontos cardeais europeus foram muito, muito, duros com o governo grego, com o referendo e antes e depois do resultado não se esquivaram a dizê-lo. Curiosamente, para António Costa, o grande problema da Europa é a posição do governo português. Ignorando as declarações públicas dos seus parceiros europeus, António Costa inventa posições que Portugal não toma.

Convenhamos que sobre a Grécia Costa não acertou uma, esta é só mais uma.

Futuro

De resto, sobre a Grécia apenas uma nota. O que infelizmente vemos acontecer estes dias por lá, é a consequência duma acção política que muitos advogaram para Portugal – convém não esquecer. E se cá passámos por muitas dificuldades não temos os nossos pais desesperados para levantar a reforma nem os nossos filhos com um futuro incerto. A União Europeia tem e continuará a ter a obrigação de evitar o colapso da Grécia mas evidentemente que não há acordo possível com quem numa frase pede que se perdoe dívida e na seguinte explica quanto ainda tem de pedir emprestado. E a quem leu nos títulos de jornal alguma coisa sobre um relatório do FMI que declara a dívida grega insustentável, convido a ler com mais detalhe o mesmíssimo relatório. Lerá lá que até à entrada do Syriza no governo a dívida era perfeitamente sustentável e a economia e o emprego gregos estavam em trajectórias positivas. A incerteza dos últimos meses causou muito mal à economia helénica – basta pensar no que acontece ao Turismo num país de que se teme que possa abandonar a moeda europeia – e a Grécia demorará a recuperar.

O que não me preocupa, francamente, é o perigo de contágio. Portugal está não só numa situação economicamente vários pontos acima da da Grécia, como já terminou o seu programa sem sobressaltos. Temos asseguradas as necessidades de financiamento do estado português, com a almofada financeira que tantos criticaram. Mas sobretudo as eleições legislativas não levarão, estou certo, nenhum Syriza português para o governo. Os mercados poderão descansar porque o povo português não quer cá o que vemos na Grécia. Resta perceber onde terminará o zigue-zague do PS. Mas nem isso me preocupa. O PS não vai ganhar as eleições.