Siga-nos

Perfil

Expresso

Eu(ro)foria - ou como não ter discurso para Portugal

  • 333

O que têm França, Itália, Alemanha e a Grécia em conjunto? Várias coisas, naturalmente, mas queria destacar uma: a enorme euforia do Partido Socialista com os seus resultados eleitorais.

Primeiro foi António José Seguro com Hollande. Qual Messias viria dele a salvação portuguesa. Hollande colocaria no centro das políticas europeias o o crescimento e o emprego – estando ainda por descobrir um governo que não tenha exactamente aí as suas prioridades. Seguro esteve várias vezes em França e avistou-se com o presidente francês. Como se sabe hoje, Hollande seguiu os caminhos conhecidos e é das vozes críticas de caminhos como o Syriza propõe.

 Depois apareceu Matteo Renzi. Uma espécie de salvador socialista da Europa ainda recentemente explicou que não estava disponível para colocar os italianos a pagar privilégios gregos. Ainda assim Costa não se cansa de o apontar como farol. Parece que Renzi percebe mais de Realpolitik que o nosso Costa.

Recorde-se ainda o senhor Gabriel, que não tendo ganho as eleições na Alemanha à senhora Merkel, logo integrou o seu governo. Deixou cair os seus fãs nacionais mas a esperança não morreu com o SPD.

Quando por fim o Syriza ganhou as eleições gregas é que foi. Desta seria de vez. O que franceses, italianos e alemães não conseguiram seria obtido por um partido sem experiência sequer na gestão dum sardinhada de S. João. O Syriza trazia a boa nova e evangelizaria a Europa. Conforme se pode ver dos desenvolvimentos da últimas semana a coisa é ligeiramente mais complicada.

Muito descomplicada é a táctica do Partido Socialista - e nisso Costa e Seguro são iguais: à falta de estratégia, discurso, e propostas nacionais, toca de olhar para fora e encontrar um Messias que defenda, ainda que sempre inconsequentemente, um caminho diferente. E vá de apoiar esse Messias. Ainda ontem Carlos César dizia com imensa convicção que o acordo (que não chegou a ser acordo) mostrava a sensatez do PS. Note-se que mesmo essas propostas gregas eram bem mais exigentes que o que Portugal hoje tem de suportar. Mas claro, o que conta é encontrar o farol estrangeiro e segui-lo acriticamente.

Mas estou a ser injusto. O PS não se deixa apenas deslumbrar com providenciais líderes estrangeiros. Por vezes, cá dentro, lá aparece quem alumie um caminho que imediatamente se segue sem questionar. Recordo por exemplo o Manifesto do 74. Assinado por António Capucho, Sampaio da Nóvoa, Carlos César, Eduardo Cabrita, Ferro Rodrigues, João Galamba ou Pedro Adão e Silva - destacados dirigentes socialistas - jurava tal manifesto que a dívida pública era impagável, obrigatoriamente tinha de ser reestruturada com prazos alongados e taxas de juro abaixadas. Era então, há cerca de um ano, este documento a bíblia do PS como se pode retirar da lista de subscritores. 

Pouco mais de um ano depois, o PS apresenta o documento dos doze economistas - João Galamba e Paulo Trigo Pereira até subscrevem os dois documentos. Esse documento assume silenciosamente que não é preciso mais nada nos próximos anos para que a dívida pública portuguesa desça (ANEXO - Cenário Inicial) e mais nada propõe sobre reestruturação, renegociação ou o que quer que seja que o PS e dois dos subscritores dos dois documentos anteriormente consideravam indispensável. O leitor ouviu falar nos últimos meses do problema da dívida portuguesa? Pois não, o documento do PS resolveu a questão e meteu a dívida na gaveta.

Talvez esteja nessa gaveta o Socialismo que Soares lá pôs. Não sei. Mas é razoável admitir que nas próximas semanas e meses mais propostas e mais juras de alternativa se juntem na gaveta. O PS é perito nisso. Só é pena - a sério - que se tenha sempre de virar para outros para encontrar um discurso. Porque quem depende de políticos como os do Syriza para poder ter discurso europeu, terá tendência para acabar nas mãos dos interesses desses políticos. E Portugal merecia que o PS estivesse refém apenas dos interesses dos portugueses.