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Expresso

Dia da Libertação

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Amanhã, sexta-feira, assinalam-se 70 anos do fim da 2ª Guerra Mundial na Europa. Com ela, terminaram também os regimes Nazi e fascista na Alemanha e em Itália. E começou para muitos povos da Europa de Leste o martírio do comunismo. Mesmo assim, e reconhecendo a ambiguidade que a data tem para os nossos parceiro de Leste, vale a pena assinalar esta data.

Quando em 1933 o presidente Hindenburg chamou Adolf Hitler para chanceler do governo da turbulenta República de Weimar – o regime alemão que saiu da derrota da Primeira Guerra Mundial – os políticos que controlavam a maioria nesse governo (só dois membros para lá do chanceler eram do partido nazi) pensaram que em dois meses teriam resolvido o problema nazi e encostado o senhor Hitler à parede. Nada mais errado, claro. O partido nacional-socialista em volta de Hitler, Göring, Himmler e Goebbels tomaria o poder num processo radicalmente eficaz e assustador. Em poucos meses anulariam o poder do Parlamento, a independência dos tribunais, a autonomia dos estados federais e tudo o que se relacionava minimamente com um estado de direito. Utilizando tácticas de intimidação apesar de tudo habituais na época – em que comunistas e nazis já antes da chegadas dos últimos ao poder se envolviam em batalhas campais na rua com alguma regularidade, quando não trabalhavam em conjunto para pela via da sua influência junto dos sindicatos sabotarem economicamente a República – e utilizando o poder do estado para criar um regime nunca visto de perseguição às liberdades mais essenciais conquistadas por vários povos desde a Revolução Americana.

O regime nazi construiu uma máquina em que o estado todo-poderoso centralizava tudo para benefício do partido e dos seus sinistros objectivos Nesse sentido o regime de Hitler tinha muito em comum com outros totalitarismos: escolheu os inimigos do regime, desumanizou-os na propaganda e perseguiu-os implacavelmente, colocou a economia ao serviço dos interesses do partido e assegurou que todas as posições do estado eram ocupadas por figuras que em primeiro lugar obedeciam ao partido e ao seu líder que tinha poderes ilimitados. Qualquer coisa que se assemelhasse com "Rule of Law" era inexistente.

Este estado criminoso - com triste ponto alto na máquina dos Campos de Concentração e de Destruição - não se virou apenas para os seus cidadãos. Hitler procurou uma política externa agressiva e expansionista que o levou a anexar a Áustria e os Sudetas checos antes de se virar contra a Polónia e por fim provocar a declaração de guerra de Inglaterra, França e restantes aliados. A União Soviética, recorde-se, entra na guerra ao lado da Alemanha Nazi com quem divide a Polónia invadindo pelo meio os países bálticos e tentando o mesmo (aí sem sucesso) com a Finlândia. Seria preciso Hitler atacar o império de Estaline para que os dois regimes - tão parecidos em muitos aspectos - entrassem em conflito.

As novas tácticas de guerra desenvolvidas por jovens comandantes alemães como Guderian e Rommel aliadas à eficácia da velha escola prussa em torno de homens como von Rundstedt ou von Manstein não encontrariam par nos primeiros anos de guerra e a Leste e Oeste a guerra parecia ganha. A França capitularia a 22 de Junho de 1940, nem um ano depois do início das hostilidades. Num demonstrar de como a vingança pode demorar anos a ser servida, Hitler mandaria assinar os termos do armistício na mesma carruagem - retirada do museu francês em que se encontrava - e no mesmo local onde em 1918 os comandantes alemães tinham assinado o fim das hostilidades na Primeira Grande Guerra face aos vencedores franceses. Talvez cientes de que não há duas sem três, as SS fariam explodir essa carruagem nos dias finais da Segunda Guerra Mundial.

Se após a derrota da França a Europa pôde ter uma esperança de reconquistar a liberdade, isso deve-se ao povo inglês e à liderança de Winston Churchill. No período exacto de um ano, entre 22 de Junho de 1940 e 22 de Junho de 1941, apenas o British Empire verdadeiramente fazia frente ao poderio nazi. Debaixo das bombas das esquadras da Força Aérea nazi, os ingleses mantiveram-se estóicos na certeza de que uma paz que poderiam possivelmente negociar com os nazis não seria aceitável. As palavras de Churchill - que aproveitava a rádio para apelar à força dos ingleses - em três discursos fundamentais no Parlamento inglês, são já lendárias. Ao tomar posse - após ter sido chamado para substituir o fraco governo de Neville Chamberlain que prometera, nem um ano antes do início da guerra, ter selado com Hitler um pacto de paz para «o tempo das nossas vidas» - explicou claramente ao que vinha garantindo que nada mais tinha a oferecer que «sangue, trabalho, lágrimas e suor». Semanas depois, tomando a guerra no continente o rumo desastroso que levaria à queda de Paris, prometia lutar até ao fim: em França, nos mares e oceanos, nas praias, nos campos, nas estradas e nos montes. «Nunca nos renderemos». Finalmente a dando-se o anuncio do armistício francês, prometeu restaurar a liberdade a checos, polacos, noruegueses, holandeses e belgas - bem como aos "camaradas" franceses. Que o início da Batalha de Inglaterra seria a batalha pela civilização cristã, a britânicas e as suas instituições. Pediu perserverança e força aos ingleses para que, nem que o Império Britânico vivesse mais mil anos, as pessoas ainda pudessem olhar para trás e dizer «aquele foi o seu melhor momento».

Foi certamente.

Felizmente Hitler tinha tanto de fanático como de louco - não é sempre assim? - e o sucesso militar não durou sempre. Aberta a frente a Leste contra a enorme Rússia, a Alemanha começaria a conhecer, particularmente a partir da batalha de Estalinegrado, a derrota no campo de batalha. Milhões de mortos - a URSS seria a mais afectada com mais de 20 milhões - seriam necessários para a derrota final da máquina alemã. Máquina que entretanto mataria cerca de 10 milhões de pessoas duma forma praticamente mecanizada nos campos de concentração de extermínio. Seis milhões eram judeus.

Hoje a Europa em que vivemos é fruto dessa terrível guerra mas sobretudo fruto do que os líderes europeus aprenderam com ela. A paz assinada com a futura República Federal da Alemanha foi muito diferente da assinada com a Alemanha de Weimar, em 1918. A Europa soube unir-se para eliminar do seu seio o flagelo da guerra, algo que conseguiu exemplarmente desde 1945. O dia 8 de Maio é por isso o dia da libertação da Europa mas sobretudo o dia dum começar de novo.