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Expresso

À beira mar plantado

TAP e Grécia: a luta continua

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Quando, na Primavera, o Syriza ganhou as eleições gregas com propostas incumpríveis e dependentes de concessões sem fim dos seus parceiros europeus, estes não deixaram a Grécia cair. Dando tempo ao governo grego, acordaram um período de 4 meses para o mesmo governo apresentar propostas de consolidação das contas públicas e depois libertar mais dinheiro da troika - rebaptizada de "instituições". No entretanto o financiamento estaria assegurado.

Com o passar do tempo, o governo grego mostrou-se muito lento ou muito pouco concretizador com essas propostas. É normal, atenção, num cenário de braço de ferro, que assim seja. Mas a estratégia grega pode mesmo ser a de forçar um não-acordo, colocando as culpas nos credores. Afinal, ainda nem o prazo acabou, já se pede nova injecção de liquidez para obviar aos problemas que as contas gregas continuam a apresentar e o governo não sabe ou não quer resolver. Ao mesmo tempo o primeiro-ministro grego sobe a parada colocando - toldado por não se sabe bem o quê - sob os ombros da UE o maior prejuízo no caso de falhanço de acordo com a Grécia.

O tempo e a história dirão. Se o governo grego está a tentar puxar as negociações ao limite ou está mesmo na demanda dum pretexto para sair da zona euro - contrariando a vontade do seu povo. O Eurogrupo e o Conselho, suponho, manterão a sua posição não necessariamente popular mas certamente a que a prazo garante o melhor para a europa: a insistência em contas públicas sãs ajudará a garantir que a crise das dívidas públicas não volte a abalar a zona euro.

Entretanto em Portugal, se nos lembrarmos, um acordo de última hora fez cancelar uma greve na TAP que traria, no Natal e na passagem de ano, terríveis momentos aos portugueses que viajam nessa quadra. Foi um acordo muito abrangente e até prejudicial, a meu ver, dos interesses imediatos da TAP. A TAP é uma empresa altamente carente em capital - algo que muita gente não compreende ser possível, quando tem resultados operacionais positivos, mas esse resultado, como o nosso superávit primário, é absorvido no pagamento da dívida que tem de abater todos os anos. Em rigor a TAP está falida, mas nada que preocupe os trabalhadores. Com greves em cima de greves reduzem o valor da empresa e com o acordo alcançado, ainda mais o fazem: nenhum despedimento colectivo enquanto o estado for accionista e no minímo nos próximos 30 meses, participação dos trabalhadores nas decisões estratégicas para a empresa - o que funciona lindamente lá fora, mas cá será como colocar Mário Nogueira a ministro da Educação - limites à contratação de serviços a terceiros - algo banal em qualquer empresa - e mais. Acontece que todos estes pontos reduzem a margem de manobra de futuros compradores. E, quer queiramos quer não, um comprador o que quer é margem de manobra. Para ficar sujeito à gestão de outros basta ser cliente. 

O problema para nós, contribuintes, é que essa redução de valor significa um encaixe menor na empresa. Como no entanto a constante agitação no interior desta também reduz valor, compreendem-se as concessões do governo. Tudo bem? Não, tudo mal. O acordo implicava também concessões dos sindicatos, nomeadamente a não ocorrência de greves. Ora se já na semana passada se percebeu a ameaça dos sindicatos em quebrar o acordo, ela ontem tornou-se efectiva. O mês de Maio começará com dez (!!!) dias de greve dos pilotos.

É uma inversão que em primeiro lugar prejudica principalmente os interesses da empresa. Não cria nenhum capital - que não nasce propriamente nas árvores - não actualiza a frota - que depende desse mesmo capital - nem cria valor de que a empresa tanto precisa. E fica sobretudo um sabor a que o acordo do final do ano tenha sido apenas - algo paraleloe ao acordo com a Grécia - um ganhar de tempo para fragilizar agora em cima das decisões a privatização da TAP.

Temo que sejam os que agora anunciam greve por razões corporativas os principais prejudicados a prazo. Veremos mesmo se a TAP tem condições de continuar a funcionar normalmente se a privatização for suspensa por esta ou aquela razão.

Como no caso grego, a história dirá.