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Expresso

O País dos Prodígios

Sócrates e o 'Público'

Falando ao Rádio Clube Português (som que gentilmente aquela estação cedeu para um podcast nesta página de Internet), António Costa fez um ataque em toda a linha ao jornal 'Público', ao seu director e ao seu proprietário.

Como é óbvio, não tenho procuração de Belmiro de Azevedo, nem dos meus colegas José Manuel Fernandes e José António Cerejo (director e jornalista daquele diário) para defender jornal alheio. Mas ficaria mal com a minha consciência se não dissesse o que se segue:

1) O trabalho de José António Cerejo no 'Público', sobre as assinaturas de Sócrates a projectos que não eram seus, mas de outros engenheiros, pareceu-me sério, seguro e bem documentado. Não conheço jornal independente no mundo que não o publicasse.

2) O trabalho em si não revela nada de especial que não se soubesse: que os engenheiros trocavam projectos entre si por razões várias e que Sócrates, na sua juventude, alinhou nesse esquema. O caso morreria se não fosse esta espécie de histerismo do poder contra o jornal.

3) Associar o resultado da OPA da Sonae sobre a PT à orientação do 'Público' como jornal é, manifestamente, errado e calunioso. Nem creio que José Manuel Fernandes se mova por objectivos do grupo Sonae, nem acredito que o engenheiro Belmiro, ou o presidente da Sonae, Paulo Azevedo, influam nas notícias do 'Público'. Quem pensa desta maneira não conhece os jornais ou vê o mundo a preto e branco.

4) A reacção de Sócrates é desproporcionada. Na verdade, o primeiro-ministro não discute os factos que a notícia em causa lhe assaca. Apenas diz que os projectos são seus, mas não explica por que motivo fez projectos tão maus na Guarda, nem abre os processos a consulta para se avaliar se seriam ou não da sua autoria. Apenas discute as motivações com que a notícia foi feita. Ao reagir assim, ele não desconhece a pressão brutal que coloca sobre os jornais e sabe que qualquer notícia, comentário ou crítica menos favorável são vistas do ponto de vista do combate político e não como devem ser escrutinadas: através do critério da veracidade. Independentemente de a notícia ser verdadeira,  ataca-se de forma violenta os autores da mesma, na reedição cansativa da morte do mensageiro.

5) António Costa, que se tem revelado um excelente autarca e que é um homem com uma inteligência superior, escusava de se ter prestado a este papel. As suas declarações - que se podem ouvir aqui - acaso fossem proferidas por alguém de direita, seriam consideradas imediatamente como desejos censórios, intolerantes e ameaçadores. Só mesmo por saber quem é António Costa podemos ficar descansados.

Mas é bom não esquecer que certos demónios, quando postos à solta, são difíceis de controlar.