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Expresso

Um bife mal passado

10 de Junho, Portugalidade e Portuguesismo

Alexander Ellis, Embaixador Britânico

Vou amanhã para Santarém para as comemorações do Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas; um acto que faz parte do ritmo anual do Estado, e naturalmente também do corpo diplomático. O proprio título do dia sugere alguma coisa sobre o conceito de Portugal; vai celebrar-se não só uma terra mas também uma cultura, um escritor épico, e um povo (ou melhor dizendo, povos; as celebrações são das comunidades, não de uma comunidade apenas), que se estendem muito para além das fronteiras do Guadiana, do Minho e  do mar.

Este conceito  alargado de Portugal desperta-me muito interesse e ainda mais depois de ter ouvido ontem um discurso do Presidente da República em que ele se referiu ao conceito de "Portugalidade". Pedi aos meus colegas portugueses mais informação sobre esta ideia e aprendi muito com as respostas.

Se entendo bem, "Portugalidade" representa o melhor de Portugal e dos Portugueses; uma abertura ao mundo, uma universalidade de correr o mundo e acolher o mundo; é um conceito dum Portugal que tem peso no mundo, por causa da sua língua e da sua atitude, e até da diáspora que prospera em todos os continentes. Portugalidade é então uma forma de identidade, da qual a língua portuguesa constitui um pilar essencial. 

Tomando como base esta informação, os meus colegas também referiram a outra face da moeda - o "Portuguesismo". Para eles, isto representa aquilo que Portugalidade não é; atitudes de desconfiança e pouca força, o "não vale e pena, nada muda",  os comportamentos que envergonham, ou até mesmo o fechar-se na sua própria dimensão. Poe exemplo, (alguns referiram) estar no estrangeiro mas manter hábitos da terra natal, tal como comer croquetes, se calhar de qualidade duvidosa, quando há tanta outra coisa boa para comer...

Sinto-me obrigado a  acrescentar que esta sugestão provocou um debate intenso na Embaixada, com alguns a dizer não senhor, que o croquete era uma comida nobre, até  digna da Portugalidade, que tudo depende da maneira de o servir. Talvez a definição mais interessante para mim tenha sido duma colega que disse que Portuguesismo era definir Portugal por oposição ao resto do mundo, começando com Espanha. Ouvi nesta referência ecos do comentário do Presidente Obama no seu excelente discurso no Cairo sobre identidade.

Os dois conceitos, ou pelo menos as duas palavras, são novos para mim.  O meu resumo provisório é que a selecção nacional do Mundial do futebol de 2002 representa o Portuguesismo, e a do Euro-2004 a Portugalidade.

O que mais me fascina sobre estas definições é que os dois conceitos têm dentro deles um elemento em comum - a maneira como os Portugueses se comportam no estrangeiro. Isto quer dizer que o conceito de Portugal é, na verdade, um conceito não geográfico mas cultural e que as duas vertentes, uma mais desejada (Portugalidade) que a outra (Portuguesismo), têm um elemento de "lá", da terra fora de Portugal que estranhamente é tão importante na ideia de Portugal; e que, de certeza, implica a importância das "saudades" para a cultura  portuguesa - porque é só estando lá que um Português pode sentir saudades de cá.

Mas será que as saudades fazem parte da Portugalidade, ou do Portuguesismo - ou, como os croquetes, tudo depende do contexto?