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Telegramas da saída limpa

O que é que a Austrália tem a ver com o Estado Islâmico?

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

De Sydney a Kobane são mais de 14 mil quilómetros. Mas a proximidade entre a mais importante cidade australiana e a localidade mais disputada pelo Estado Islâmico é imensa, como muita gente começou a perceber nas últimas horas. A ação terrorista que tomou de assalto um café no centro de Sydney é surpreendente, mas não é uma surpresa. Há algum tempo que as autoridades australianas tinham subido o seu nível de risco para ataques terrorista para "muito alto".

As informações de que radicais islâmicos planeavam algum ataque em território australiano tinham crescido exponencialmente. Há algumas semanas, o governo divulgou mesmo que, na sequência de um raide espetacular e muito vistoso, a polícia australiana tinha conseguido fazer abortar um plano terrorista que consistia em apanhar um cidadão australiano no meio das ruas de Sydney e decapitá-lo, à vista de todos.

Não há nenhuma razão para se duvidar da informação divulgada sobre esse atentado falhado nem sobre o "estilo" escolhido. O único atentado reconhecido internacionalmente como tendo sido cometido por "militantes" regressados a casa, depois de terem lutado nas fileiras do Estado Islâmico, foi o triplo homicídio no museu judaico na Bélgica. E há mais de um ano, dois militantes radicais cortaram o pescoço a um militar britânico em Londres à luz do dia. Este tipo de ataques contra uma ou poucas pessoas requerem muito pouca preparação e têm um efeito devastador na opinião pública. E a Austrália é um local onde este tipo de atentados era efetivamente mais esperado.

Apesar da distância, a Austrália tem pelo menos 160 cidadãos alistados no estado Islâmico. E dois dos vídeos que mais chocaram o mundo têm como protagonistas australianos, sendo que num deles é uma criança que aparece a discursar junto a... cabeças decapitadas... O choque da opinião pública australiana tem sido tão extremo, que o governo, liderado por Tony Abbott, tomou medidas muito radicais, alterando as suas leis antiterrorismo a tal ponto, que não escapou a fortes críticas políticas, jurídicas e humanitárias.

Uma das razões que sustenta estas leis - que podem pôr na cadeia por dez anos quem viaje para o território do Estado Islâmico, corte de qualquer subsídio estatal, confisco de passaportes, deportações, retirada da nacionalidade, etc - é exatamente o problema do regresso a casa dos extremistas. Um tema que tem tido grande atenção política no Reino Unido ou na Holanda, mas que, por exemplo, em Portugal passa completamente ao lado da agenda política.

A grande dimensão da comunidade islâmica na Austrália, e o facto de ter reconhecidos focos de recrutamento de extremistas, tem feito o governo australiano agir depressa e com mão dura. Não só entrou de imediato na coligação militar internacional que combate o Estado Islâmico, como defende que as leis de segurança interna têm que ser reforçadas, mesmo pondo em causa direitos fundamentais dos seus cidadãos. Depois do que aconteceu na madrugada desta segunda-feira, este caminho não tem retorno.

Tony Abbott chegou ao poder como um político bastante isolacionista, acusando o seu antecessor de estar sempre a viajar e alcunhando-o de "Kevin 747"... Mas os acontecimentos no Médio Oriente, o recrutamento de australianos, os vídeos chocantes em que participam, os riscos de ataques terroristas (e, já agora, o facto de haver muitos australianos a bordo do avião civil que os rebeldes ucranianos abateram) fizeram-no mudar radicalmente. Isso já se tinha notado quando acolheu a cimeira do G-20. Mas a partir de hoje o seu papel internacional será incrivelmente maior. E é previsível que muitos países - incluindo Portugal - aprovem com urgência novas leis antiterrorismo, que permitam combater uma ameaça com este tipo de atuação.