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Expresso

Telegramas da saída limpa

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Um texto minoritário

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Falar de Cavaco Silva nos dias de hoje sem ser para dar pancada é assumir uma posição absolutamente minoritária. O que não deixa de ser curioso quando o sujeito da análise é o único político que tem no bolso quatro maiorias absolutas, ainda por cima com mais de 50% dos votos. Que Cavaco Silva já foi um político incrivelmente popular, é absolutamente indiscutível. Que também sai de Belém com a mais alta impopularidade de um Presidente, também. A maior parte dos comentadores defende que é a sua prestação como Presidente, sobretudo a do muito polémico segundo mandato, que ficará na memória de todos e nos livros de História. Eu penso o contrário, que o tempo fará com que a sua imagem política fique mais ligada a dez anos de governo – num período de enormes transformações no país – do que aos dois mandatos em Belém, cargo onde poucas vezes se destacou e quase sempre perdeu em comparação com os antecessores e, com alguma probabilidade, irá perder para o seu sucessor.

A extrema impopularidade presidencial de Cavaco Silva decorre em parte da natureza do cargo, para o qual não estava especialmente talhado. A sua formação profissional e estilo político sempre o destinaram mais a cargos executivos que ao papel de moderador. Isso era relativamente fácil de antecipar quando se candidatou a Presidente, quer quando perdeu contra Jorge Sampaio, em 1996, quer quando ganhou a Manuel Alegre, em 2006. O Palácio de Belém não é nem nunca será o melhor local de trabalho para políticos muito executivos e de natureza tecnocrática, sobretudo quando deixam de estar protegidos por uma equipa de ministros, deputados e dirigentes partidários prontos a formar a primeira linha de ataque e a primeira barreira de defesa. Em Belém, um político está essencialmente sozinho. Ser Presidente é assumir uma certa solidão de poder e decisão e saber que se passa a encarar o povo sem grandes filtros. É o Presidente e mais nada à volta dele.

É claro que Cavaco Silva se podia ter defendido muito melhor contra isso. Devia ter mantido pontes abertas para a sociedade e para os partidos, que descurou. Devia ter trabalhado muito melhor a forma como comunicou e se explicou. Os seus dois maiores desastres de comunicação – o caso das ações da SLN (BPN) e o valor da sua pensão – eram facilmente explicáveis e entendíveis, mas acabaram por se transformar em crises irreversíveis. A sua primeira vaia pública ocorreu em Guimarães, durante a abertura da Capital da Cultura, poucos dias depois de o Presidente se ter enredado numa atabalhoada explicação sobre a sua pensão. Ou seja, foi ele que a provocou totalmente, sendo que era uma polémica muito fácil de evitar.

Sobre o passado recente há pouco a fazer. Sobre o mais distante idem. A grande dúvida é qual dos dois passados se vai sobrepor. Normalmente, a última impressão é a que fica. Mas também é normal que o tempo acabe por desvalorizar alguns episódios e valorizar outras decisões. Nada disso servirá, na essência, para mudar muito a opinião que a maioria dos portugueses têm sobre o que fez Cavaco Silva em Belém durante dez anos. Mas o tempo contribuirá para que volte a ser recolocado na posição que já ocupava antes de chegar a Presidente e que é a de segundo político mais importante do pós-25 de Abril.

Esta avaliação não tem a ver com o que se gosta ou não gosta de um político, mas com o seu papel na História. E se é relativamente óbvio que Mário Soares é o político português mais importante do pós-25 de Abril, Cavaco Silva é o segundo. E isso não se deve apenas ao tempo que estiveram em funções, porque Sá Carneiro, António Guterres, Durão Barroso ou Jorge Sampaio, entre outros, também atravessaram a nossa política muito tempo. O que diferencia Cavaco Silva dos outros primeiros-ministros não é o tempo que esteve em São Bento, mas a transformação absoluta que o país sofreu nesse período. Esses dez anos, recheados de mudanças, decisões certas e erradas, revolucionaram completamente o país, rompendo definitivamente com o atavismo bafiento do Estado Novo e a confusão pós-revolucionária, estabilizando a democracia e a economia de mercado numa coabitação com Mário Soares e apanhando os anos de ouro da integração europeia. Sei que este é um texto minoritário, mas penso que o tempo acabará por colocar Cavaco Silva no papel que fez dele um político incontornável.

  • Cavaco conseguiu, sem precisar de recorrer a grandes talentos oratórios ou a qualquer instrumento de coação, convencer a maioria dos portugueses a entregar-lhe por cinco vezes o poder. As eleições deram-lhe absoluta e incontestada legitimidade democrática. Mas o instinto de Cavaco Silva é autoritário. Penso que na própria cabeça de Cavaco a imagem do professor de Finanças austero, que despreza o debate e encarna em si mesmo toda a Nação, o levou a ver-se como uma espécie Salazar da era democrática. Mas para se comparar à trágica grandeza do ditador falta-lhe tudo o resto: a cultura histórica que lhe permita representar a Nação, a cultura política que lhe permita ter um desígnio para o País e a cultura ética que lhe permita ser um modelo. Cavaco Silva é autoritário apenas porque é demasiado ignorante para compreender as razões profundas da superioridade da democracia e porque é demasiado egocêntrico para aceitar a transitoriedade do poder. É autoritário por feitio, não por convicção. Por ignorância, não por predestinação. Cavaco é afinal só Cavaco. O seu ego é o seu programa político

  • Chegou hoje ao que será presumivelmente o último dia da sua carreira política. Para quem disse que não era político, teve uma longevidade assinalável, ganhando quatro eleições com maioria absoluta, uma sem maioria e perdendo igualmente uma. Teve razão muitas vezes, mas perdeu-se em pormenores e decisões canhestras. Sai com a popularidade de rastos, mas isso não quer dizer que não tenha adquirido o seu lugar na História