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Telegramas da saída limpa

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Passos, do conto de crianças aos louros da madrugada

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FOTO JOSÉ SENA GOULÃO / LUSA

“A proposta final [do acordo entre a Grécia e os credores] teve o contributo da delegação portuguesa. Este facto contradiz uma ideia feita, e bastante errada, que passou por colocar Portugal no pelotão da linha dura do Eurogrupo. Isso não é verdade.” A análise de Ricardo Costa, diretor do Expresso, a propósito de uma frase de Passos que marcou o dia: “A solução que acabou por desbloquear o último problema que estava em aberto partiu de uma ideia que eu próprio sugeri”

As declarações do primeiro-ministro sobre os momentos decisivos da reunião que selou um acordo entre a Zona Euro e a Grécia deixaram muita gente espantada. O espanto, que em muitos casos tocou a indignação e deu origem à divertida hashtag #PorAcasoFoiIdeiaMinha, não decorreu de nada do que se tenha passado na madrugada decisiva, mas de tudo o que lhe antecedeu e, sobretudo, da estratégia e do estilo assumido pelo primeiro-ministro e pelo nosso governo desde o resgate português.

No que diz respeito à madrugada decisiva, o que Passos Coelho disse é correto. Quando Passos Coelho diz que “curiosamente, a solução que acabou por desbloquear o último problema que estava em aberto, que era justamente a solução quanto à utilização do fundo [de privatizações], partiu de uma ideia que eu próprio sugeri”, está a dizer a verdade. Ou seja, a ideia de permitir a utilização de €25 mil milhões para investimento partiu, efetivamente, da delegação portuguesa.

É claro que dizer que foi uma proposta portuguesa que salvou a reunião é um ligeiro exagero, sobretudo quando se olha para todas as peripécias que decorreram na maratona negocial, com tantos acidentes e contratempos. O acordo não foi salvo por uma declaração, longe disso. Aliás, o momento mais tenso teve lugar já depois das seis da manhã, quando Tsipras e Merkel decidiram, em simultâneo, abandonar a sala - por defenderem que não havia acordo possível -, e foram travados por Donald Tusk, que os impediu de sair…

YVES HERMAN / Reuters

Mas, para a história do acordo, a proposta final teve, de facto, o contributo da delegação portuguesa. Este facto contradiz uma ideia feita, e bastante errada, que passou por colocar Portugal no pelotão da linha dura do Eurogrupo. Isso não é verdade. É certo que, numa primeira fase de conversas com a Grécia, quer Portugal quer, sobretudo, Espanha se opuseram a soluções fáceis, porque isso poria em causa as suas estratégias de ajustamento e de posicionamento eleitoral a meses de eleições nacionais. Mas é ainda mais certo que essas “soluções fáceis” nunca teriam o apoio da verdadeira linha dura do Eurogrupo.

Só quem não conhece bem as tensões políticas da Zona Euro é que podia achar que seriam Portugal ou Espanha a impedir um acordo com a Grécia. As dificuldades mais sérias sempre foram com a Alemanha, a Finlândia, a Holanda, os Estados Bálticos, a Áustria ou a Eslováquia. Há coisas que não mudam.

É óbvio que nem Portugal nem Espanha são verdadeiros santos nesta história. Rajoy tem um sério problema doméstico e precisa que o Syriza seja desacreditado para que os eleitores espanhóis percebam o que os espera com o Podemos. Esse é um problema que Pedro Passos Coelho não tem – comparar o PS ao Syriza é uma anedota, que em Portugal se popularizou num artigo do Telegraph, absolutamente ignorante em relação ao nosso sistema partidário – e que não faz qualquer sentido cavalgar. Passos sabe isso muito bem.

O problema que Passos Coelho tem é completamente diferente do de Rajoy. É o de mostrar, em simultâneo, que o caminho que escolheu foi o correto para conseguir recuperar a autonomia financeira e que todas as vantagens que entretanto foi conseguindo decorreram desse bom comportamento. Esta versão do primeiro-ministro é verdadeira, mas tem um único problema: seria possível ter feito mais?

Getty

É nesta pergunta que reside o principal confronto entre PSD e PS na ressaca deste resgate grego. O PS apostou tudo na força de Hollande e, neste caso, a estratégia correu bem. Não há ninguém que não tenha percebido que a posição de força de França ou de Itália contra a saída da Grécia do Euro foi decisiva. É claro que a decisão final ficou nas mãos de Merkel, mas a posição conjunta da segunda e da terceira maiores economias da zona Euro foi decisiva.

Esta solução acabou por permitir ao PS afastar-se da absurda simpatia com que recebeu o Syriza em janeiro e reposicionar-se no seu eixo natural, ao lado de Hollande e Renzi. E é exatamente o “sucesso” da maratona de Bruxelas que obriga Passos Coelho a posicionar-se mais próximo da solução agora encontrada. Na cabeça do primeiro-ministro pouco mudou desde o “conto de crianças” até à decisão desta madrugada. E se alguma coisa mudou, foi sobretudo o Syriza, que deixou pelo caminho quase todas as bandeiras.

O Passos Coelho do “conto de crianças” é o mesmo que “recolhe os louros” da madrugada. Alguém que não mudou de sítio, mas que viu quase tudo mudar à sua volta: o Syriza a passar da linha dura à genuflexão, o Eurogrupo a passar da inflexibilidade à negociação, o Grexit a acabar em agreekment. Neste momento, o primeiro-ministro sabe que, com alta probabilidade, Portugal vai a votos com a Grécia no Euro, depois da Europa ter mostrado todas as suas faces, num regresso a linguagens típicas de acordos de rendição. E sabe que a humilhação foi excessiva e, em boa parte, desnecessária. É isto, e apenas isto, que o levou a reclamar em público a autoria de uma sugestão que foi efetivamente sua.

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