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A Tempo e a Desmodo

Viva José Sócrates!

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Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Estou muito feliz, meus amigos. Muito mesmo. Aliás, estou que nem posso. Estou muito contente com o governo. Porque ontem, no parlamento, o actual governo fez um discurso mui interessante. Pela voz do ministro Teixeira dos Santos, o executivo disse o seguinte ao país: acabou a Era do crédito fácil, e, por isso, a governação socialista vai ter de mudar (está visto que o governo gosta de me ler). Mais: Teixeira dos Santos afirmou que o país tem de fazer reformas-chave no sentido de alcançar flexibilidade laboral (estou que nem posso) e na lei das rendas (parem de me mimar, please). Que beleza de discurso. Que belo arranque da campanha eleitoral. Se beber o suficiente, até sou capaz de votar em Sócrates.

Meus amigos, estou tão contente que nem vou ligar à difícil relação que este governo mantém com aquilo que a minha avó apelidava de vergonha na cara. Não, não estou a falar da inacreditável falta de respeito pelo parlamento. O abandono do parlamento por parte do primeiro-ministro é, digamos, uma formalidade burguesa sem importância. Ora essa. A falta-de-vergonha-sem-importância-deste-governo-é-visível-noutra-coisa-sem-importância: Teixeira dos Santos falou como se tivesse chegado agora ao poder. Até parecia que esta gente não está no poder há seis anos. Até parecia que esta gente não governou 12,5 dos últimos 15 anos. Até parecia que o governo não tem um passado de crítica às ideias que Teixeira dos Santos defendeu ontem. Não se lembram? Afirmar-se que "a governação assente na dívida tinha acabado" era bota-abaixismo (ou seja, Teixeira dos Santos confirmou ontem que Manuela Ferreira Leite tinha razão). Afirmar-se que "o governo precisa de flexibilidade laboral e ao nível do arrendamento" era ultra-neoliberalismo-fascista. Lembram-se daquilo que aconteceu no Verão passado? Lembram-se da forma como Sócrates atacou as ideias de Passos Coelho? Ora aí estão algumas dessas ideias na boca de Teixeira dos Santos.

Em resumo, o discurso de Teixeira dos Santos representa a negação da governação socialista 2005-2010. O discurso de ontem representa a derrota ideológica do socratismo. Perante isto, um governo com vergonha na cara sairia de cena, admitindo que as suas ideias fracassaram. Mas esta malta socrática é muito mais divertida. Esta malta reinventa-se a cada semana. Sócrates matou Sócrates, mas já há um novo Sócrates. Viva o novo Sócrates. Viva José Sócrates. Estou que nem posso.