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A Tempo e a Desmodo

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Sócrates, o saltimbanco da dívida

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Em vez de andar pelo mundo a estender a mão, Sócrates devia andar por Portugal a ver a utilidade de cada umas das 14 mil instituições que recebem dinheiro do Estado. Mas, claro, fazer o trabalho de casa não é uma tarefa à altura do nosso sexy primeiro-ministro.

I. Depois de meses de discussão, uma coisa parece certa: nós não podemos sustentar 14 mil entidades públicas ou que recebem dinheiros públicos. Nós temos de arrumar a casa, nós temos de fechar ou deixar de apoiar milhares destas entidades. Ou seja, nós temos de separar o trigo do joio. Se não fizermos isso, deixará de haver dinheiro para o essencial (hospitais, escolas, segurança; aliás, estes serviços já têm dificuldades). Ora, perante este facto, o que tem feito o governo? Nada. O governo pensa e fala como se estas 14 mil entidades não existissem. Parece que o governo não quer mesmo arrumar a casa. Como dizia Luís Marques (Expresso, 29 de Janeiro), "arrumar a casa é mesmo uma grande chatice. É muito mais sexy andar a pedir dinheiro pelo mundo". De facto, há algo de errado nesta política seguida por Sócrates e Teixeira dos Santos: andam de mão estendida, a correr de um lado para o outro, quando deviam estar a pensar na forma de emagrecer o Estado. Até porque esse é o único factor que pode acalmar os nossos credores. Mas para quê fazer este trabalho político de sapa, quando podemos andar pelo mundo a vender dívida a países pouco simpáticos? É, sem dúvida, mais sexy.

II. E, atenção, esta venda de dívida a países com a cor preta neste mapa não é apenas uma actividade técnica e económica. É uma questão política e até institucional. Que eu saiba, o mandato eleitoral de Sócrates não estica até este ponto, ou seja, nenhum eleitor deu a este governo um salvo-conduto que permite a venda de Portugal a países autoritários em negócios pouco transparentes. Ainda por cima, Portugal pode recorrer à UE e ao FMI, locais mais transparentes do que os fundos chineses e arábicos. Mas o que é mais impressionante neste caso não é a habitual falta de classe do socratismo. O que impressiona é o silêncio das instituições: o parlamento e o Presidente não dizem nada sobre esta matéria. Permitem que o saltimbanco da dívida ande por aí à solta, sem qualquer controlo institucional.

 

PS: a história é dada a ironias. Este governo não se calava com a manutenção dos centros de decisão nacional em Portugal. E, agora, o desígnio nacional é vender Portugal aos países menos transparentes do planeta. Porreiro, pá.