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Expresso

A Tempo e a Desmodo

Se for de esquerda, a pedofilia é chique

No tema da transgressão sexual, a duplicidade de critérios do costume atinge o zénite: a direita é a enteada, a esquerda é a filha. Compare-se por exemplo Berlusconi e Dominique Strauss-Kahn (DSK). O primeiro não violou mulheres, pagou serviços de profissionais. Sim, não é o tipo que queremos para a nossa filha, mas Berlusconi não violou mulheres. Ao invés, DSK tem um historial de violência. O francês está vários níveis abaixo do italiano no campeonato da pulhice. Se a pulhice fosse a Liga dos Campeões, DSK seria o Barcelona e Berlusconi a Udinese. Todavia, a atmosfera dos média não reflecte esta diferença. Berlusconi é sempre pintado como o grande vilão sexual; DSK, por seu vez, tem direito a abordagens mais matizadas, mais ambíguas ou mesmo abonatórias. Quando foi apanhado pela polícia americana, pudemos ler coisas inconcebíveis: aquilo era uma cabala (branqueamento através da teoria da conspiração) ou era a fúria sexual-poética do bicho-homem à procura da transgressão e não sei quê (branqueamento através do jargão pós-moderninho).

E convém frisar que esta glorificação da transgressão só pelo facto de ser transgressão não é nova. Aliás, o culto da transgressão explica o comportamento vergonhoso da esquerda europeia noutro campo da sexualidade: a pedofilia. Exemplos? Em 2001, durante um caso de pedofilia que envolveu um lar de deficientes, o Le Monde publicou um desenho representando um adulto em amassos com uma criança. Faz sentido, sim senhor. Em 1998, no 30.º aniversário do Maio de 68, a imprensa de esquerda justificou as práticas pedófilas de Daniel Cohn-Bendit e de outros meninos mimados que brincaram à revolução. Pois claro, um esquerdista nunca pode ser um pulha, só pode ser um tipo que curte a vida na transgressão da moral, essa coisa burguesa, reaccionária e talvez neoliberal. Mais exemplos? Quando François Bayrou questionou Cohn-Bendit sobre os seus actos de pedofilia, rebentou uma onda anti-Bayrou. Bayrou, coitado, é um ignorante e desconhecia a primeira regra do espaço público: se és de esquerda, estás acima do bem e do mal, mesmo quando andas a comer meninos. Não se pense porém que a esquerda francesa tem o monopólio deste comportamento abjecto. Na campanha eleitoral em curso, Os Verdes da Alemanha têm sido confrontados com um passado pouco digno. Eis a posição que esta esquerdinha alemã manteve ao longo da década de 80: se não existem provas de violência, o acto não deve ser considerado pedófilo. Tudo muito bonito, tudo muito transgressor, tudo muito de esquerda.

Curiosamente, estas facções culturais e políticas passaram as últimas décadas a capitalizar os casos de pedofilia da Igreja. É a segunda regra do espaço público: se és de esquerda, não precisas da coerência.