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A Tempo e a Desmodo

Rita Marrafa de Carvalho, o machismo e as crianças

Cheguei ao caso através de mais uma fabulosa epístola do provedor de leitores do Diário de Notícias, esse génio que está provavelmente na short list do Nobel ou Booker. Mas vamos lá ao caso. Rita Marrafa de Carvalho, uma das caras mais familiares da RTP, chegou ao Palácio de Belém para fazer uma reportagem no dia 20 de Dezembro. Por acaso, nesse dia, Marrafa de Carvalho estava com a grande dor de cabeça da paternidade: não tinha onde deixar a filha. Como eu a percebo. Onde deixar os miúdos nas malditas férias escolares? Aliás, por que razão têm os miúdos mais férias do que os pais? Num beco sem saída, a repórter pediu à Presidência da República para entrar com a filha, é só hoje, quebrem lá o galho, aliás, é um galhinho. Qual foi a resposta da Presidência de um país a atravessar a pior das crises de natalidade da sua história? Não.

Não, não podemos quebrar o galho, a entrada de uma criança, ora essa, é uma brutal quebra no protocolo, quiçá uma falha de segurança, a criança pode começar a depenar os pavões ou assim. Para sair deste novo beco, Rita Marrafa de Carvalho fez uso do famoso parlapiê dos repórteres dos directos: transformou em babysitter um agente da PSP; o sôr polícia descobriu novas vocações e entreteve a criança com um jogo no computador. Mais tarde, no rescaldo da cena, a repórter criticou a Presidência no Facebook. Na reacção, um português da CBS e o provedor do DN escreveram duas prosas que merecem entrar directamente no altar do machismo. No fundo, estes senhores colocaram a questão nos termos absolutos do marialva: se tens filhos, ficas em casa; se queres andar no mundo dos homens, não podes ter filhos. E eu a pensar que o reaça era eu.

Mas estes dois ecos de Palma Bravo não me interessam. A personagem que me arrelia é a Presidência. Sim, é uma personagem colectiva, e não a destaco por acaso. A atitude da Presidência reflecte o nosso dia-a-dia colectivo. As nossas leis e hábitos já colocaram a criança num papel secundário. Já não pensamos a sociedade através da presença dos pequenos. Um facto visível nas pequenas e nas grandes coisas. Quando a minha filha chora de noite, sinto o olhar de reprovação do vizinho no dia seguinte, estilo "veja lá se põe uns pozinhos no leitinho, está bem?"; se a minha filha ocupa um lugar no Metro, há logo dois ou três olhares, uns de Rambo, outros de Gato das Botas, a dizer "mete a miúda ao colo, que eu quero sentar-me". Mas deixemos os pormenores epidérmicos e entremos nas grandes questões. Exemplos? A falta de entrosamento entre as férias dos miúdos e férias dos pais (o problema de Marrafa de Carvalho), as relações de trabalho crivadas de machismo (o problema de quase todas as mulheres) e o próprio horário de trabalho (um problema geral). Em Portugal, parece que toda a gente tem o horário laboral do marialva: começa-se a trabalhar a meio da manhã, almoça-se muito depois do meio-dia e, neste sentido, a ida para casa ocorre muito tarde. Este horário é uma arma de destruição da natalidade.

Moral da história? Somos o povo mais mimoso à face da terra, mas não conheço outra sociedade com um dia-a-dia tão adverso à presença de crianças.