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A Tempo e a Desmodo

Quando é que Joe Berardo nos devolve o dinheiro?

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Nesta terra de Deus, as coisas têm um prazo de validade de iogurte de marca branca. Já ninguém fala de Joe Berardo e das negociatas que envolveram CGD e BCP, mas convém recordar a brincadeira. Além de apontar para a típica impunidade das personagenzinhas de 'Lesboa', a tal brincadeira vai custar-nos dinheiro. Sim, a nossa carteira vai ser chamada ao assunto.

Joe Berardo recebeu da CGD cerca de mil milhões de euros para comprar 5% do BCP, e deu como garantia as próprias acções do BCP. Se tudo corresse bem, Berardo vendia as acções e ficava com o dinheiro. É o que se chama ficar-rico-sem-mexer-uma-palha. Se tudo corresse mal, o prejudicado era a CGD, isto é, o dinheiro dos contribuintes. Como se sabe, a realidade optou pela segunda via. Acções que valiam mil milhões em 2007 valem hoje um décimo desse valor. Mas, atenção, o esqueminha não acaba aqui. Os 5% comprados com o dinheiro da CGD bastaram para Joe Berardo ajudar a colocar os administradores da CGD, Vara e Santos Ferreira, ao comando do BCP. Primeira pergunta: num país com tantas leis, não existe por aí uma alínea que considere isto um crime? Esperemos sentados. Segunda pergunta: quem é que paga a conta final desta OPA chico-esperta? Nós. O empréstimo da troika tem lá uns milhões para o sistema bancário, e as imparidades da CGD estão em níveis gigantescos. Só no ano passado chegaram aos 1,2 mil milhões, e este valor continuará a marcar as imparidades do banco estatal nos próximos anos. Mais cedo ou mais tarde, a CGD realizará aumentos de capital para tapar o buraco, isto é, acabará por receber mais dinheiro dos nossos impostos.

Ora, naquele mar de imparidades confirmadas, está já incluído o dinheiro emprestado a Berardo? Se sim, quando é que o sujeito nos devolve o dinheiro? Mais: já que o Ministério Público não vê na negociata um crime mais explícito, não podemos ver ali um daqueles crimes implícitos, assim ao jeito de gestão danosa? Os gestores que deram os créditos que geraram semelhante mar de imparidades não deviam ficar impunes. Mas, claro, a impunidade é o nome do meio desta terra de Deus.