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A Tempo e a Desmodo

Por favor, devolvam-me a Alexandra Lencastre

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Como qualquer português com níveis aceitáveis de testosterona, eu mantenho uma relação pessoal, íntima e intransmissível com Alexandra Lencastre. Cada um de nós, adoradores da diva mais pequena da historia, tem os seus momentos predilectos. Os meus são três. O primeiro está n'O Delfim de Fernando Lopes. A forma como Lopes filmou o corpo da infecunda mas bela Maria das Mercês (Lencastre) queimou-me os olhos até hoje: a câmara segue as curvas fellinianas da deusa, a luz vermelha filtrada por Eduardo Serra dá o tom operático, que é reforçado pela banda sonora italiana. Sublime, ah? E, já que estamos no sublime, avancemos para o segundo momento: esta curta de César Monteiro na qual a deusa mostra as maminhas ao Sr. Raposinho. Mas calminha aí, porque nada bate o terceiro tesourinho lencastriano. Algures no início dos anos 90 e num programa da Manuela Moura Guedes, o génio de Herman José ofereceu-nos o momento mais memorável da tv portuguesa: tendo Alexandra Lencastre ao colo, Herman larga a bomba "ó querida, tens de sair daí, porque vais começar a sair do enquadramento". Intimidades que continuaram a marcar a TV da pátria.

É por tudo isto que estou em estado de choque com a operação plástica da diva. O que terá passado pela cabeça da deusa? Será que ela não sabe que a ruga é uma coisa charmosa? Num episódio do Californication, Hank disse o seguinte sobre outra moda do mulherio moderninho: "while I'm down there it might be nice to see a hint of pubis. I'm not talking about a huge 70's Playboy bush or anything. Just something that reminds me that I'm performing cunnilingus on an adult". Com todo o rigor kantiano, o mesmo raciocínio pode ser aplicado às rugas. As rugas indicam que estamos perante uma mulher madura, adulta, soberana, uma imperatriz, uma deusa e as deusas têm rugas, pá, as modelos adolescentes que secam a testosterona de um gajo é que não têm rugas. E ninguém está interessado em meninas sem marcas do tempo (isso é a cena dos japoneses). E, agora, a gente olha para o ex-rosto da diva e vê uma adolescente, ou talvez um robot, como o Jude Law em A.I.  

Minhas queridas trintonas, quarentonas e cinquentonas, um conselho de amigo: as rugas são boas, a ruga tem um poder entesoador superior ao decote. Por favor, não sigam a exemplo da diva. Ninguém quer saber de um rosto terraplenado pela técnica, um rosto plástico e asséptico que parece um laboratório médico, um rosto pouco feminino, pouco tudo. Minhas queridas, as rugas são tão sensuais como as curvas. Fazer uma plástica para tirar rugas faz tanto sentido como fazer uma plástica para tirar as curvas. Ninguém faz uma plástica para tirar a circunferência gostosa da anca ou o arco do busto, pois não? Então façam lá um favor a Vossas Mercês e à malta: deixam estar as rugas no sítio.