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Polónia, o patinho feio

Os europeístas de galinheiro têm um desporto favorito: criticar a Polónia. Estes "Durões Barroso" de bancada deviam tentar perceber a Polónia de Lech Kaczynski.

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

I. Sempre que é preciso encontrar um culpado para os fracassos da UE, os europeístas de galinheiro atacam o Reino Unido ou a Polónia. Mas há aqui, apesar de tudo, uma diferença: os europeístas ainda conhecem um pouco da história do Reino Unido, mas desprezam em absoluto a história da Polónia. E o problema começa precisamente aqui.

II. Os polacos demoraram imenso a aceitar o Tratado de Lisboa. Durante esse período de tensão, o europeísmo acéfalo criticou, sem pensar, a Polónia. Aquele país foi apelidado de "anti-europeu", "soberanista", "antiquado", etc. Ora, um pouco mais de humildade não fazia mal a este europeísmo de gatilho rápido. Tal como explica Tony Judt, os polacos são muito ciosos da sua soberania, porque a Polónia só é um Estado livre e soberano desde 1989. É bom lembrar que a Polónia foi uma colónia de Moscovo entre 1945 e 1989. Se o meu país tivesse esta história, eu também pensaria três vezes antes de assinar o Tratado de Lisboa.

III. Depois temos de ter em atenção a história das relações entre a Alemanha e a Polónia. Até 1945, a Polónia foi um campo de tiro permanente dos exércitos prussianos e, depois, alemães. Pior: até 1945, a Polónia foi uma espécie de sandes-mista trincada a meias por alemães e russos. O território polaco foi sempre partilhado por Moscovo e Berlim. Não por acaso, Norman Davies recorda que a II Guerra Mundial começou com uma dupla invasão da Polónia: nazis e soviéticos invadiram a Polónia ao mesmo tempo. Os polacos não esquecem isso.

IV. Perante este passado, é natural que os polacos pensassem três vezes antes de assinar o Tratado de Lisboa (que é, atenção, um tratado alemão, isto é, oficializa a posição da Alemanha como primus inter pares dentro da UE). E esta desconfiança polaca é ainda mais justificada quando observamos o actual amiguismo energético entre a Alemanha e a Rússia. O "NordStream" é uma vergonha para a Alemanha, e uma justa razão de desconfiança para a Polónia. Se fosse polaco, eu acho que mandava transformar o Tratado de Lisboa em pasta de papel.