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Expresso

A Tempo e a Desmodo

Paulo Rangel e os debates de plástico

O mainstream avalia de forma errada os debates na TV. O político que fala da realidade e para a realidade, sem técnicas de marketing, é sempre considerado o "perdedor".

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

 

I. Repito: um debate político na TV não é uma audição para os "Ídolos". Em política, a realidade virtual da televisão não pode substituir a realidade. Porque um político tem de lidar não com a "realidade" virtual da TV, mas sim com a realidade pura e dura, aquela coisa que está do lado de fora do estúdio de TV. Um político até pode fazer um marketing brilhante na TV, mas isso serve de muito pouco quando se percebe que esse mesmo político está deslocado da realidade. Foi isto que sucedeu no debate entre José Sócrates e Manuela Ferreira Leite. Na altura, fui criticado por dar a vitória a Manuela Ferreira Leite: "então, v. não vê que o Sócrates esmagou a senhora? Não se vê que isso é óbvio?". Não, não era óbvio. Porque Manuela Ferreira Leite foi a única que falou da realidade do país. José Sócrates desprezou, por completo, o problema do endividamento. Isto não contou na altura. "Sócrates limpou a senhora", dizia-se. Meses depois, a realidade deu razão a Manuela Ferreira Leite. E agora é a realidade que está a limpar o país. 

II. Há dias, a maioria das pessoas considerou que Passos Coelho venceu Paulo Rangel. E eu fico a pensar: mas porquê? Mas as pessoas ouvem o que é dito? Ou só vêem? Além das desonestidades, Passos Coelho disse coisas graves - do ponto de vista político e económico - para um candidato a primeiro ministro. Propor que o PSD não devia ter aprovado o Orçamento é de uma enorme irresponsabilidade, nesta época de pressão externa sobre a nossa dívida. É isto que conta. Só isto. Ok, Passos Coelho decorou uns cartões e fala como se estivesse a olhar para o power point. E depois? A substância deve ser superior à forma. Ou não? Em Portugal, é a forma que interessa? Parece-me que sim. Na política portuguesa, pode-se ser irresponsável, desde que se seja fotogénico.

III. Falei com um amigo. Ele diz-me que Paulo Rangel perdeu. Eu pergunto porquê. À medida que o meu amigo responde, percebo a razão da nossa diferença de opiniões: ele vê um debate de TV como se estivesse a ver um jogo de ténis ou de futebol: "Ah, ele esteve muito à defesa". Ora, a meu ver, o cenário é um pouco diferente. Paulo Rangel defendeu as suas ideias. Paulo Rangel defendeu ideias e actos que causaram polémica (ex.: ensino profissional; discurso no Parlamento europeu), e defendeu-se das críticas implícitas da jornalista. Óptimo. Então, como é? Estamos sempre a queixarmo-nos que só temos políticos de plásticos a dizer vacuidades, e depois dizemos que um político polémico perde debates só porque defendeu as suas ideias fortes e polémicas? Sendo assim, mais vale ser de plástico.

IV. No debate entre Aguiar Branco e Paulo Rangel, tudo girou em torno das ideias de Rangel. Aguiar Branco foi uma espécie de fiscal das ideias de Paulo Rangel. Não deu uma única ideia, só criticou as do adversário. Mas a malta acha que Aguiar Branco foi o vencedor. Ora, quando fizer um debate, eu já sei o truque: não apresento uma única ideia, e só ataco a dos adversários. Posso ser pouco inteligente, desde que seja agressivo. Boa.