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Passos Coelho: primeiras notas

Convencer o partido é uma coisa. Convencer o país é outra coisa bem diferente. Passos Coelho deve ter essa noção. E começa bem: a ideia de um governo sombra é um bom sinal.

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

I. Pedro Passos Coelho não era o melhor candidato, mas foi o candidato que demonstrou mais vontade. E, em democracia, ganha quem mostra mais vontade. O PSD está cheio de aristocratas que se julgam superiores a Passos. E, se calhar, até são. Mas os ditos aristocratas têm de demonstrar essa superioridade no terreno. Na última vez que verifiquei, Portugal não era uma aristocracia, mas sim uma democracia. Uma democracia não se governa a partir da torre de marfim da superioridade intelectual e do snobismo social.

II. Com estes 60%, Marcelo Rebelo de Sousa fica com pouca margem para jogar com o seu "fantasma". Marcelo, se quiser ganhar o partido, tem de descer à terra e fazer o circuito da carne assada, que é o circuito do país real. A política, meu caro professor, não é uma aula de direito.

III. Pedro Passos Coelho conseguiu uma vitória clara e inequívoca. Os aristocratas do partido, agora, têm de engolir o sapo. Mais: devem ajudar Passos na elaboração de um programa de governo. Porque o inimigo é Sócrates, e não Passos. Porque não existem diferenças abissais entre o "rangelismo" e o "passismo". Neste sentido, Passos Coelho deve incluir "rangelistas" nos órgãos de chefia do partido. Em anexo, o novo Presidente pode, e deve, pegar no programa de Rangel, ao nível da educação, por exemplo. E também pode, e deve, aproveitar as sugestões que Aguiar Branco fez para a justiça.

V. Conquistar um partido através do caciquismo é uma coisa. Conquistar um país é outra coisa, mais difícil. Passos Coelho, e seus apoiantes, têm agora a oportunidade de mostrar o que valem. E, valha a verdade, começam bem: a ideia de criação de um governo sombra - tal como hoje noticia o Expresso - é um bom sinal. É assim que se faz política de forma responsável. É assim que se faz política nos sítios civilizados.

VI. Paulo Rangel é muito novo. Esta foi a volta de aquecimento.