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Papandreou é muito esperto ou muito tonto

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Nunca aquele chavão de filme americano fez tanto sentido: Giorgos Papandreou ou é muito esperto, ou é muito tonto. E comecemos a análise (reparem na pompa) pela hipótese da tontice.

Ao abrir a porta ao referendo, Papandreou está a brincar com o fogo. E o pior é que esta brincadeira não queima apenas os gregos, queima toda a zona euro, sobretudo os outros países com planos de resgate (ou seja, aqui a malta). Parece que Papandreou está como boa parte dos seus compatriotas, isto é, ainda não percebeu o buraco em que a Grécia está metida. Tal como alguns portugueses, os gregos ainda não perceberam uma coisa: os gastos do estado grego foram suportados pelos tais mercados durante anos e anos, e, agora, são suportados pela troika. Por outras palavras, os salários dos funcionários públicos e os serviços sociais do estado foram suportados, em grande percentagem, pelos mercados da dívida; para chegar àquele nível de despesa, o estado dependia e depende dos mercados. 

Como os gregos não conseguem estabelecer um debate assente nestas bases realistas, a Grécia corre mesmo o risco de dizer não no tal referendo. Ok, ótimo. Mas os gregos deviam estar conscientes de uma coisa: dizer não ao pacote de ajuda europeu é o mesmo que entrar em bancarrota total, é o mesmo que não pagar a dívida, é o mesmo que ficar sem financiamento externo durante décadas, é o mesmo que cair várias décadas em termos de riqueza, é o mesmo que ter uma crise bíblica com a dracma, e não esta crise com o euro. Será que os gregos estão conscientes destas consequências? Um não no referendo representa um sim ao ingresso numa espécie de terceiro-mundo mediterrânico. É uma escolha legítima, diga-se, mas convém que os gregos conheçam as consequências dessa escolha.

E é aqui que entra a outra hipótese, a hipótese de Papandreou ser muito esperto. Como é óbvio, ele conhece os riscos que acabei de expor. Mas Papandreou também sabe outra coisa: a sua sociedade ainda não conseguiu debater estes problemas de forma realista e serena. Aquilo que se vê em Atenas não passa de um anti-germanismo básico. Portanto, este referendo poderá ser a única forma de gerar um debate realista na Grécia, poderá ser a única forma de confrontar os gregos com as opções que têm em cima da mesa: ou empobrecem um pouco e de forma controlada dentro da UE, ou empobrecem muitíssimo e de forma imprevisível fora da UE. Este referendo poderá ser assim a forma ideal para os gregos perceberem uma coisa: não há aqui boas escolhas. Aliás, nunca a expressão "escolher o mal menor" fez tanto sentido. Na Grécia (e em Portugal).