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A Tempo e a Desmodo

Os gays de Manuel Alegre

O esquerdismo nos nossos media tira as luvas nos momentos eleitorais. Manuel Alegre disse que a "adoção por gays ainda me causa engulhos". Ninguém disse nada. E, desde domingo, a vitória não é de Cavaco Silva, mas sim da abstenção. Etc., etc., etc.

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

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I. Bem sei que os media portugueses são um campo esquerdista. Bem sei que os nossos media criam em Portugal uma atmosfera esquerdista sem paralelo na Europa (talvez com a exceção da Grécia e de Paris). A atmosfera de esquerda é o nosso senso comum. É assim, e um tipo tem de se habituar. Tudo bem. Mas durante os momentos eleitorais a coisa fica ainda mais assanhada. Nos momentos eleitorais, fica ainda mais à vista a existência de um regime moral e mediático para a filha, a esquerda, e de um regime moral e mediático para a enteada, a direita. Por exemplo: ainda antes do início da campanha, Manuel Alegre deixou cair esta pérola: "A adoção por gays ainda me causa engulhos". Esta frase não causou a mínima polémica. Ninguém confrontou Manuel Alegre, ninguém fez perguntas sobre isto. O que é estranho: Manuel Alegre é apoiado pelos dois partidos que mais lutaram pela causa gay. Se Cavaco Silva tivesse dito semelhante coisa, meu deus, gritos de "morte ao ultramontano de Boliqueime" teriam ecoado em todas a redações.

II. E repare-se no rescaldo maintream da noite eleitoral: até parece que Francisco Louçã e Manuel Alegre não perderam em toda a linha. Aliás, nos media portugueses, Francisco Louçã e o BE nunca perdem. Do discurso de Francisco Louçã, as TVs só mostraram a farpa que ele lançou ao PSD e CDS. Eu sei que é cool apoiar o BE e não sei quê. É como gostar da banda que está na moda. Eu percebo isso. Mas podem disfarçar um bocadinho. E também podiam mostrar os momentos em que a cara de Francisco Louçã era um tratado sobre um tema antigo: o espetanço da arrogância, esse momento em que a hubris encontra uma parede de betão.

III. Mas o mais divertido é mesmo a forma implícita como muita gente anda a dizer que a vitória de Cavaco Silva não tem legitimidade. Pois claro: quando a esquerda ganha eleições, ganha mesmo; quando a direita vence eleições, calma, que a vitória é da abstenção. No fundo, o spin que anda por aí quer passar a mensagem que Cavaco Silva não tem legitimidade para dissolver a assembleia. Que notável argumento. Isto é o mesmo que dizer que Jorge Sampaio não tinha legitimidade para derrubar Santana Lopes em 2004 (a abstenção da segunda eleição de Jorge Sampaio também chegou à casa dos 50%). Isto é o mesmo que dizer que PS não tinha legitimidade para governar devido à alta abstenção nas últimas legislativas. Isto é o o mesmo que dizer que a maioria absoluta de 2005 não tinha legitimidade, porque o PS só recolheu o voto de 21% dos inscritos.

IV. Claro que o argumento da falta de legitimidade de Cavaco Silva é patético, mas a forma como anda a circular diz tudo sobre a atmosfera esquerdista que se respira em Portugal. Aqui, a esquerda pode tudo, logo, quando a direita ganha, é preciso inventar desculpas para retirar legitimidade à dita direita. Ou seja, mesmo que ganhe na legalidade democrática, a direita nunca tem legitimidade moral para governar. É a intrusa no país dos dois sistemas morais.