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A Tempo e a Desmodo

"O Senhor dos Anéis" encontra "O Sexo e a Cidade"

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Tinha uma enorme expectativa: a HBO a visitar o território do fantástico, eis uma fórmula que deixava água na boca. E a primeira cena de A Guerra dos Tronos até promete mundos e fundos. É duríssima e recria o género ao estilo de O Senhor dos Anéis. Aliás, tendo em conta a dureza da cena, cheguei a pensar que A Guerra dos Tronos iria superar os filmes de Peter Jackson. Mas, como dizia o meu avô, o primeiro milho é para os pardais. Ao longo dos episódios, A Guerra dos Tronos não assume a 100% o território da fábula (é negra, mas é uma fábula). Parece que os argumentistas tiveram medo de fazer uma coisa demasiado mística e afastada das referências do público. 

É por isso que as personagens da série são demasiado parecidas com figuras-tipo do nosso tempo. Há, por exemplo, o casalinho gay da praxe e uma relação pai/filha que parece saída da "Pais & Filhos" da semana passada. Depois, existe uma enorme obsessão com o voyeurismo sexual e consequente linguagem desbragada. Por vezes, fica a impressão de que estamos a ver um episódio esquecido de Sexo e a Cidade. E, por falar em linguagem, toda a série não respira o tempo mágico que procura criar. Uma obra de ficção que pretende recriar ou criar um tempo tem de adaptar a sua linguagem, não pode colocar as personagens a falar como se estivessem na Nova Iorque de 2012. Um dos encantos de O Senhor dos Anéis é a forma como cria uma linguagem própria que nos leva - per se - para aquele tempo mágico. Deadwood é incompreensível sem legendas, porque recria o inglês do velho oeste americano. Os diálogos de Mad Men estão repletos de expressões que, entretanto, saíram da linguagem corrente. A ausência deste esforço em A Guerra dos Tronos dificulta a suspensão da descrença perante uma série que procura criar uma Idade Média com monstros e feiticeiros.

Mas, apesar de tudo, A Guerra dos Tronos vale a pena. O território imaginado - Westeros - vale por si. Para começar, a geografia e o enredo fazem lembrar a história da Inglaterra. A luta dinástica entre a Casa Stark e a Casa Lannister é um decalque da Guerra das Rosas. A norte, existe a Muralha de Gelo, que protege os Sete Reinos de forças incompreensíveis (Muralha de Adriano). A leste, no outro lado do mar, existe uma dinastia rival e estrangeira (a luta entre ingleses e franceses na Guerra dos 100 anos). O mais importante, porém, é a forma como esta fábula respira os seus verões de 1000 dias e os seus invernos de 70 anos. Ou seja, este mundo fascina quem estiver disponível para a suspensão da descrença. E, na segunda temporada, este salto de fé será ainda mais proveitoso se existir outro cuidado nos diálogos.