Expresso

Siga-nos

Perfil

Perfil

A Tempo e a Desmodo

Henrique Raposo

O país onde as mulheres têm de ser gordas

  • 333

Do alto da sua ignorância eurocêntrica, um sujeito pensa que África é sinónimo de mulheres escanzeladas e famélicas, mas parece que existe um país africano onde as mulheres são versões negras da Miss Piggy. Aliás, as mulheres deste país têm mesmo ser badochas. É uma imposição social. Estou a falar desse paraíso nórdico chamado Mauritânia, e a prática em questão dá pelo nome de leblouh, que é como quem diz "ó filha, tens de engordar, senão não arranjas homem". O amor ali vem aos quilos. Quando vê uma estria no bumbum delgadinho, a mulher ocidental entra em colapso. Quando vê semelhante fenómeno, a cidadã da Mauritânia tem um espasmo de alegria. Se a filha de 10 anos pesar 80 quilos, o pai ocidental convoca o psiquiatra. Se a filha de 10 anos pesar 80 quilos, o pai mauritanense dá uma festa e vende a menina ao pai do futuro genro. E o que acontece quando a petiz não engorda? A família é coberta pelo manto de vergonha. Como é bonita a diversidade da Criação.

Entre os 5 e os 12 anos, as garotas mauritanenses são forçadas a entrar numa dieta que faz inveja ao maior comilão do Biggest Loser. Qual é a ementa diária? Tradicionalmente, as futuras noivas tinham de engolir canecas de manteiga e dezenas de livros de leite de camelo. Entretanto, as maravilhas da técnica chegaram à Mauritânia e o leite de Camelo foi substituído por aqueles químicos destinados à engorda dos animais. Ou seja, estas jovens mulheres são literalmente gado. E, como qualquer vara ou rebanho, são enviadas para centros de concentração destinados à engorda. Quais são as actividades lúdicas destes campos? Se recusarem comer, são torturadas. Se vomitarem, têm de voltar a comer o vomitado temperado pela poeira do chão. Curiosamente, esta gastronomia empoeirada é defendida pela maioria das mulheres mais velhas mas é rejeitada pelos jovens machos. A maioria dos cavalheiros da Mauritânia (70%) não quer dar o nó com porta-aviões de estrias ou com colecções de doenças coronárias. Quem diria? Uns aculturados, é o que é, uns vendidos à cultura eurocêntrica. 

Vivendo num Ocidente que se transformou num porta-aviões de indignados, fico sempre surpreendido com o desprezo que os profissionais da indignação garantem às mulheres de outras culturas. Sim, eu sei, sou uma besta eurocêntrica. Tal como os garotos da Mauritânia. 

 

Da série "Gostar de Mulheres"

A mulher que matou Salazar 

O homem que falava através das mulheres

Odiar as curvas da mulher: a marca do terrorista islamita

As chinesas querem o corpo da mulher ocidental 

Aborto e baptismo: a hipocrisia criticada por Francisco I 

Uma portuguesa foi a primeira Lara Croft 

Conquista de Abril: a libertação das mulheres 

A Bimby da sogra 

A portuguesa que inventou a pornografia para mamãs 

Portuguesas inventaram a alta pornografia 

Por favor, devolvam-me a Alexandra Lencastre 

As maminhas que pararam a Tunísia 

O Facebook dos bebés 

A vingança das feias 

Quando se podia ser mulher no Irão 

A mulher que queria ser um homem 

Os japoneses não gostam de mulheres 

Quando a mulher é literalmente uma escrava 

Apedrejar uma mulher, pá, é uma questão de contexto 

Um livro para a mãe wannabe 

Porque é que os egípcios molestam mulheres? 

É católica, logo é estúpida  

Cara Triumph, devolva-me as mulheres 

Os biquínis que param o Egípto