Expresso

Siga-nos

Perfil

Perfil

A Tempo e a Desmodo

O filme do Facebook derrota o Facebook

  • 333

Com "A Rede Social", Aaron Sorkin e David Fincher quiseram mostrar uma coisa: meus amigos, podem andar o tempo que quiserem no mundinho virtual, mas, no final do dia, o que interessa é aquilo que fazem na realidade, vá, "analógica".

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

I. Mais uma vez, David Fincher fez um grande filme. "A Rede Social" é uma espécie de thriller mental. A violência não aparece na forma de "aliens" ou numa caixa com a cabeça de Gwyneth Paltrow. Aqui, a violência surge apenas nas formas que ambição toma quando não tem um freio ético. E, apesar de este ser um jogo puramente mental (ao contrário de outros), Fincher consegue manter o ritmo narrativo impressionante, apoiado num trabalho notável da montagem. Não é de estranhar: Fincher é perfeito na formação dos ambientes, que, depois, são habitados e percorridos pelas personsagens. Ambientes claustrofóbicos, para sermos exactos. Não estamos, obviamente, na cidade sem nome de Seven, mas The Social Network também é uma fonte de intensa claustrofobia narrativa. Até porque Fincher não está muito interessado em descrever "social" e "realisticamente" Harvard e Boston. Este não é um filme sobre Harvard. É um filme sobre a claustrofobia da ambição pelo poder.

II. Mais: eu diria que este filme não é sobre o Facebook. Ou melhor, Aaron Sorkin (o argumentista) e David Fincher quiseram mostrar uma coisa: os meus amigos podem andar o tempo que quiserem no mundinho virtual, mas, no final do dia, o que interessa é aquilo que fazem no bom e velho mundo "analógico". A cena final é elucidativa a este respeito. A fuga da realidade (seja ela profissional ou sentimental) através da internet não consegue durar 24 horas por dia. Num dado momento, as pessoas têm de voltar à realidade, essa coisa áspera e que "aleija muito", para citar a minha querida avó. Por isso, parece-me que Leo Robson (TLS, 5 de Novembro) não apanhou bem o filme. "A Rede Social" não é a confirmação do legado de Sean Parker ("we lived in the country, we lived in the city, now we shall live on the internet"). Pelo contrário, "A Rede Social" diz-nos que continuamos e continuaremos a viver no mundo "analógico". O mundo virtual é uma ferramenta da realidade, não é uma realidade paralela.