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A Tempo e a Desmodo

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

O azeite Gallo é racista?

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Devido à fraca qualidade do autor do costume, a gerência de "A Tempo e a Desmodo" iniciou uma nova secção: "os convidados". O convidado desta semana é Bruno Garschagen, jornalista brasileiro, mestre em ciência política e perigoso agente do OrdemLivre.

 

O problema do racismo no Brasil nunca foi muito bem esclarecido. Por mais honestos que tenham sido os estudos sérios realizados ao longo do tempo, não se conseguiu esclarecer questões fundamentais a respeito do assunto e muito menos enquadrar o brasileiro como racista, como querem muitos racialistas ou, como defendem alguns intelectuais, afirmar que a rejeição é de fundo social, não racial  - posição na qual me alinho. Ambos os lados têm lá os seus argumentos, mas ainda carecemos de uma explicação mais substantiva para o nosso fenômeno singular de, por vezes, falarmos de uma forma mais ou menos racista e nos comportarmos de maneira mais ou menos integrada, sem maiores problemas de convivência social devido às diferentes colorações da pele.

A "Pesquisa das Características Étnico-Raciais da População: um Estudo das Categorias de Classificação de Cor ou Raça" , realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que 49% dos brasileiros se consideram brancos, 13,6% pardos, 1,4% preto, 1,5% amarelo e 0,4% indígena. Há dois aspectos curiosos. O primeiro, é que o resultado da pesquisa baseia-se na qualificação dada pelo próprio entrevistado segundo a lista apresentada (branco, pardo, preto, amarelo e indígena). Segundo, a percepção visual que temos no dia-a-dia nas cidades brasileiras é completamente diferente dos resultados apresentados. O Brasil parece uma nação de pardos e há mais negros do que indica a pesquisa.

A miscigenação no Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, por exemplo, impediu que houvesse uma separação marcante entre a cor dos indivíduos. Se isto, por um lado, evitou uma segregação violenta como aconteceu entre os americanos, por outro lado, fez com que o racismo, quando existente, se manifestasse de forma muito mais sorrateira, porque velada, sem que isso impedisse a vítima de se sentir agredida. E se não temos o racismo explícito verificado em outros países, temos a condição social do indivíduo sendo muitas vezes usada como instrumento de um tipo peculiar de rejeição racial.

Esta falta de explicação substantiva para o fenômeno e o racismo em escala impossível de ser dimensionada cria situações um tanto excêntricas, como a importação de ideias estrangeiras para combater o racismo criadas por países que enfrentaram problemas muito diferentes dos nossos. Na prática, esses modelos estabeleceram problemas que não tínhamos e, pior, passaram a estabelecer uma clivagem racial artificial e igualmente importada. A implementação do sistema de cotas nas universidades públicas para pessoas de pele preta foi uma delas. O principal problema desses alunos não era um ambiente de segregação racial, mas financeiro, que os impedia de estudar em bons colégios privados e, por isso, se tornaram reféns do assustador sistema público de educação.

O segundo problema era, para além dos casos óbvios, definir quem era ou não preto e, portanto, apto ao benefício. As comissões criadas dentro das universidades chegaram ao ponto de qualificar irmãos gêmeos univitelinos em categorias de cor de pele diferentes (um foi beneficiado e o outro recusado). Ambos eram pardos. Os estudantes que conseguiam passar por esse crivo passaram a ser identificados socialmente como negros, como, mais grave, passaram a ser tratados como "cotistas", aquela categoria de aluno que só entrou na universidade porque a exigência era menor para os mesmos cursos que exigiam notas maiores dos estudantes de outras cores. Na tentativa de resolver um problema sem atacar a sua origem, criou-se mais uma forma de distinção social negativa.

Outro resultado desse ambiente não-esclarecido e de políticas raciais importadas somada ao esquerdismo cultural brasileiro, fruto da eficiente estratégia gramsciana da esquerda durante o regime militar (1964-1984), foi a institucionalização do politicamente correto, outra malfadada importação (em vez de importarmos tecnologia e cérebros, trouxemos bobagens culturais e intelectuais americanas e francesas, mas isso é outra história). O politicamente correto ganhou sua versão morena no Brasil preservando toda a infâmia que o alicerça. Já se sugeriu censurar um livro infantil e tenta-se neste momento retirar das livrarias um dicionário pela definição considerada pejorativa numa das acepções para o conceito de cigano. Qualquer expressão desaprovada por essa entidade fantasmagórica do politicamente correto é condenada sumariamente. Não tardará até que a carta de Pero Vaz de Caminha sobre a descoberta do Brasil e o Auto de São Lourenço do Padre Anchieta sejam abolidos das escolas.

A conseqüência desse ambiente cultural é, também, achar pêlo em casca de ovo. A decisão do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) de determinar a alteração da frase da peça publicitária que apresenta a nova embalagem do Azeite Gallo no início deste mês mostra que não há limites para a estupidez. A mensagem sobre a imagem dizia: "O nosso azeite é rico. O vidro escuro é o segurança". Um consumidor leu e achou que a segunda frase era racista. Em sua decisão conjunta, os conselheiros do Conar, entidade que, apesar disso, realiza um ótimo trabalho, seguiram o voto do relator do processo, "que considerou não haver no anúncio intenção racista mas ponderou que ele permite tal interpretação e que a comunicação não deve dar margem a associações equivocadas, pela responsabilidade social que tem". Como é? Não há mensagem racista, mas ela permite uma associação ao racismo, mesmo não sendo? Algo me escapa e não cheira nada bem. E porquê o consumidor considerou a frase racista e o Conar também, embora diga que não é? Porque, no Brasil, o serviço de segurança de empresas e de pessoas, em sua maioria, é realizado por gente de pele preta e parda. Assim, dizer que o "O vidro escuro é o segurança" significa afirmar que só é segurança porque é escuro, termo usado para definir aquela pessoa que não tem a pele branca. Eu não faço ideia se o objetivo dos criadores da peça publicitária era estabelecer essa relação. O problema de um eventual mal entendido poderia ser facilmente resolvido com a simples troca do artigo: "O vidro escuro é a segurança" para o consumidor de que o azeite está bem protegido da oxidação causada pela luz.

Uma voz sensata nessa história foi a do coordenador nacional da União de Negros Pela Igualdade (Unegro), Jerônimo Silva Júnior, que afirmou não ter visto qualquer racismo no texto. "Não vi nada demais. Não vejo conotação racista. É só humor mesmo. Até porque, fala do escuro, não fala do negro, da raça". Jerônimo considerou que a palavra escuro foi uma associação às roupas utilizadas pelos profissionais da segurança no Brasil. "Eles usam roupas escuras, independentemente de o segurança ser branco ou negro. Acho que temos que ter cuidado com as nossas ações, para não banalizar as nossas reivindicações."

Banalizar os temas parece ser um dos instrumentos do politicamente correto para, gradualmente, impor a sua agenda. Vai-se testando os limites da sociedade com assuntos mais polêmicos para, de forma sorrateira, fazer com que a sociedade aprove temas com menos apelo, mas que pavimenta o caminho de aceitação futura dos tópicos que realmente interessam seus agentes. Aceitar essa agenda é servir de inocente útil dessa gente. O problema é que quando nos dermos conta da real dimensão daquilo que está a se passar poderá ser tarde demais para reagir. O politicamente correto não é uma postura inofensiva de hienas estéricas; é, sobretudo, uma estratégia política mais ou menos organizada que tem se mostrado extremamente eficiente quando desenvolvida diante da passividade da sociedade.

A decisão do Conar é a manifestação pública de como o politicamente correto já está entranhando nas entidades brasileiras, incluindo as privadas. Seus conselheiros, que não poderiam recomendar a retirada do anúncio por ser simplesmente ruim, preferiram o caminho mais excêntrico: pedir a alteração para evitar algo que não aconteceu, e que poderia muito bem nunca acontecer, ou, uma vez acontecendo, provocar uma reação espontânea da sociedade que escolheria não comprar o azeite por considerar a frase tola ou de mau gosto. Ao pretender tutelar o sentimento da sociedade, o Conar agiu como o inocente útil da causa. Hoje é o escuro do vidro, amanhã será o quê? Os dois ls do Gallo?