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Expresso

A Tempo e a Desmodo

Graças a António Costa, o meu prédio parece Nápoles

Já não sei o que dizer sobre a recolha de lixo criada pela gestão de António Costa. Nunca vi a cidade tão suja como nestes dois anos. Nunca vi as entradas dos prédios com tão mau aspecto. Nunca senti tantos cheiros. Nunca vi tanta bicheza. Certas zonas da cidade parecem um pesadelo siciliano. Aliás, o meu prédio começa a parecer Nápoles durante aqueles meses de greve organizada pela máfia.

António Costa e os seus génios inventaram uma recolha de lixo que ignora a própria estrutura dos prédios. Ou seja, conceberam um "Lisboeta" abstracto e desprezaram os lisboetas concretos que vivem em prédios reais e não em utopias arquitectónicas. O novo sistema implicou a retirada dos ecopontos da rua (uma estupidez) e a colocação de três contentores (normal, azul e amarelo) em cada prédio, num esquema que contempla a recolha de lixo normal apenas três vezes por semana. Sucede que boa parte dos prédios só tem espaço para um contentor, que naturalmente é destinado ao lixo orgânico. Isto forçou a população a comprar sacos amarelos e azuis destinados ao plástico e ao papel. Mas, atenção, o problema não está nessa despesa adicional. A questão irritante é outra: o que fazer com os sacos quando ficam cheios? É que só podemos colocar os sacos amarelos na rua às segundas e sextas, e os azuis às quartas. Resultado? Temos de empilhar sacos de lixo em casa ou nas escadas do prédio. Eu, por exemplo, tenho um acordo com a minha vizinha do lado para ocuparmos o espaço entre as nossas duas portas com os sacos azuis e amarelos que têm de esperar o seu dia. Em casa já não cabe mais nada. Chegam a estar seis e sete sacos à espera. É a minha Nápoles, ali entre o 4.º esquerdo e o 4.º direito.

Sabem o que é pior? O pesadelo não acaba aqui. Como só há um contentor, o lixo orgânico também começa a desenhar pirâmides nas paredes. Como é óbvio, um único contentor não suporta o lixo normal de 10 famílias. Para mal dos meus pecados, o Dr. Costa não conhece o potencial bélico de um saco de fraldas usadas depois de 48 horas ao sol. E agora multipliquem esta imagem com outros ingredientes. Imaginem o cheiro e o aspecto da entrada do vosso prédio depois de dois dias de calor a bombardear um contendor cheio de restos de peixe ou melão. Sim, estou um bocadinho farto de viver na minha pequena e intransmissível Nápoles.