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Expresso

A Tempo e a Desmodo

Chipre: BE e PCP deviam estar contentes

Tem sido esta a lengalenga da extrema-esquerda portuguesa: os ricos que paguem a crise, o capital que pague a crise, a crise não é nossa, é de quem tem muito dinheiro especulativo (há dinheiro bom e dinheiro mau, como se sabe), a crise é deles, dos fumadores de charutos usurários, do sistema extorsionário que orbita à nossa volta, sim, eles que paguem a crise. Repare-se que este eles é um conceito deveras concreto que abarca outro conceito ainda mais preciso: os ricos (ler com o sotaque de Louçã, o sotaque do revolucionário de cadeirão).

Ninguém pode dizer que nunca ouviu este tipo de conversa a sair dos lábios chavistas da nossa praça. Louçã passou os últimos anos a defender propostas que, na prática, representavam assaltos cipriotas às grandes fortunas, outro conceito científico. Eles que paguem o sistema de pensões, ora essa. Para quê lançar impostos quando podemos ir directamente ao pote, não é verdade? E o PCP sempre defendeu diferentes variedades do assalto à mão armada sobre as contas bancárias dos poderosos, outro conceito rigoroso. A propriedade privada, sobretudo a conta bancária, nunca foi o forte desta boa gente.

Com este passado ululante estacionado na nossa memória colectiva, eu estava à espera de grandes manifestações de contentamento nas sedes da esquerdinha. Afinal, os ricos estavam finalmente a pagar a crise, as contas bancárias estavam a ser esvaziadas de forma mui revolucionária. Esperei sentado. Num imenso imenso espectáculo de amnésia, a extrema-esquerda mostrou-se desagradada com o assalto cipriota. Uma eurodeputada do BE até parecia que ia desmaiar. Mas esta não é a mesma eurodeputada que se sentou dezenas de vezes ao lado de um Francisco Louçã a gritar contra os eles e a defender este tipo de medida arbitrária? Uma medida depende de quem a faz e não do seu conteúdo, é isso? A esquerdinha quer uma coisa e o seu contrário? Quer ser revolucionária e burguesa ao mesmo tempo? Que fofos, que coerentes, que esquecidinhos.