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Carta de amor a Vítor Paneira

Há dias, quando saiu a bolinha com o nome da Juventus, lembrei-me de imediato de um jogo em que Vítor Paneira desfez sozinho a defesa da Juve (1993). Mas, para meu azar, um indivíduo na casa dos vinte anos fez o favor de destruir esta alameda de memórias com a seguinte heresia: "mas quem é o Vítor Paneira?". Confesso que estive para lhe dar um tabefe seguido de um rotativo à Van Damme mas depois ele ainda acabava por perguntar "mas quem é o Van Damme" e, aí, meus senhores, é que o caldo entornava de vez. Portanto, apelando à paz do Senhor, resolvi contar a história do Vítor Paneira, ou melhor, a história da minha relação com o maior número sete que a Benfas já conheceu (com a sua licença, José Augusto). Para começar, Paneira era o protótipo do jogador português antes da profissionalização extrema, antes da mania de que o jogador de bola tem de ser um atleta. Se quiserem, o Paneira era um Figo sem trabalho de ginásio, estava mais próximo do génio furtivo de Quaresma do que da competência mecânica de Ronaldo.

Naquele tempo pré-ginásio e pré-Bosman, Paneira fazia parte de Portugal, do meu Portugal, pelo menos. Quando me lembro da minha infância, está lá o Lecas, o Herman, o Vasco Granja, McGyver, Van Damme, Sousa Veloso e, claro, o Vítor Paneira. Para terem uma noção, eu dizia ao barbeiro que queria "um corte à Paneira" e joguei sempre na posição sete por causa dele. Na verdade, eu era guarda-redes, mas o que queria mesmo era ser como o Paneira, médio direito que vai à ala e ao centro, à patrão. Aliás, ele foi um dos patrões do Benfica pré-coma, pré-Artur Jorge, foi um dos últimos capitães portugueses, o herdeiro final de uma centelha que passou da geração de Coluna e Eusébio para a geração de Humberto e Shéu e que terminou em 94 quando Artur Jorge resolveu despedir Paneira e Isaías, entre outros. Mas antes da saída infame, Paneira ainda teve tempo para deixar na nossa memória dois grandes momentos. Em primeiro lugar, fez parte da última grande equipa portuguesa do Benfica, a de 1993, a da vitória por 5-2 na final da Taça contra o saudoso Boavista. Era assim do meio-campo para a frente: Paulo Sousa, Rui Costa, Paneira, Futre, João Pinto e Águas. Em segundo lugar, Paneira foi a alma da equipa que fez o meu benfiquismo, a equipa de 93/94, a época dos 4-4 e dos 6-3, a última época da velha mística.  

Por falar em mística, o grande episódio de Paneira não é um título ou uma jogada, como aquela em que ele deu um nó cego no Michel ou Chendo, deixando o jogador do Real Madrid no chão e um estádio inteiro a rir (Taça Pepsi de 1992), ou o primeiro golo de chapéu na final de 1993, ou as tabelinhas com Valdo na equipa campeã de 91. Embora bonitas, estas jogadas não chegam aos calcanhares do tal grande momento. Antes do jogo com o Bayer em Leverkusen (94), Vítor Paneira chamou os russos, Yuran e Kulkov, moços de profissionalismo oscilante, apontou para aquelas bancadas alemãs cheias de benfiquistas e disse qualquer coisa como isto: olhem, pá, isto é o Benfica, estamos na Alemanha, a milhares de quilómetros de casa, mas o estádio está cheio de benfiquistas. Isto é o Benfica. Façam lá o favor de se atinar e honrar a camisola que têm vestida. E honraram. 

 

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