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A Tempo e a Desmodo

Carrilho e Bárbara Guimarães: o que é público e o que é privado

A definição da fronteira entre espaço público e espaço privado é talvez a regra fundamental da sociedade civilizada. Os bárbaros não a definem, porque acham que tudo é privado. Os totalitários também não traçam o risco na areia, porque consideram que tudo é público. Algures no meio está a nossa civilização. Mas como é que descobrimos as coordenadas desta linha omnipresente mas invisível? O caso Bárbara Guimarães/Carrilho é mais do que útil no achamento da latitude moral em questão. 

Vamos supor que o adultério era o centro do episódio. Com uma dose beatífica de imaginação, vamos lá supor que Carrilho tinha traído Bárbara Guimarães com três ou quatro autocarros de matronas milficadas ou de princesas impubescentes. Nesta hipótese, o assunto seria inteiramente privado. Adultério não é crime, é uma pedra no sapato da consciência, aliás, é um calhau que fica a esmagar o dedão, mas não é um crime público. Na ordem das coisas, um político adúltero é um detalhe. É por isso que os americanos são tão bárbaros na forma como queimam VIPs adúlteros. Neste ponto, nós, portugueses, somos mais civilizados na forma como protegemos a vida privada e sexual das figuras públicas. Esta virtude porém pode transformar-se num vício. 

A partir do momento em que Carrilho é acusado de violência doméstica, o caso sai da esfera privada e entra como um míssil na esfera pública. Portanto, há que recusar a posição confortável e muito portuguesa que diz "ah, isso é privado, são adultos, que se entendam, a justiça que funcione". O sexo é um detalhe, a violência não. As preferências sexuais e os casos dos famosos são pormenores privados, mas a violência sexual e doméstica é um crime. Decorar com nódoas negras a face da cônjuge não é o mesmo que aplicar as palmadinhas recomendadas pelo Sombras de Grey. Partir os dentes à querida esposa não é "uma questão do foro privado". Além disso, uma sociedade realmente livre não confia apenas na justiça para fazer os seus julgamentos. Uma coisa é o julgamento legal, outra coisa é o julgamento moral. Ambos são necessários. Antes da frieza da lei, a sociedade necessita de uma moralidade, um código moral que, naturalmente, reage a abusos imorais. A violência dos Carrilhos é um assunto nosso antes de ser um assunto dos tribunais. Afinal de contas, já não estamos em 1960. O Estado Novo é que tratava deste assunto apenas no silêncio do tribunal, porque "não se pode falar de certas coisas".