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A Tempo e a Desmodo

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Camilo e as mulheres espancadas

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"A senhora é indigna de Baltasar Coutinho. Um homem do meu sangue não aceita para esposa uma mulher que fala de noite aos amantes nos quintais. Vista-se depressa, que vai para o convento" (Amor de Perdição). "Manda-me por tanto sahir? Sim, se a senhora não quizer ir para o convento. Não vou (...) Bem sabe que a honra d'um homem... Seu marido tem de dar contas à sociedade..." (Os Brilhantes do Brasileiro, ed. 1905).

Este é um dos grandes temas da prosa camiliana: a mulher forte que resiste ao macho lusitano, seja ele o pai ou o marido. Se há a mulher hawksiana também há a mulher camiliana. Nos livros de Camilo, as mulheres nunca são peras doces; são fortes, de pêlo na venta mesmo quando são bonitas. Aliás, têm pêlo na venta porque são bonitas. E, neste sentido, põem em causa os códigos morais da sociedade dominada pelo tuga. 

Lembrei-me desta mulher camiliana quando revi - na semana passada - os números da violência doméstica. Na ausência do convento, tem sobrado apenas uma saída para o macho português, coitadinho, limpar a sua reputação: bater ou matar a sua mulher. Todos os anos, morrem cerca de 40 mulheres portuguesas às mãos de maridos assombrados pelo rótulo mortal: corno (ou cornudo, para os amigos). 40 mulheres assassinadas em casa - todos os anos - pelos próprios maridos não é brincadeira. Não é um acaso. É um indicador de uma sociedade pouco branda. E estas 40 mulheres são apenas a ponta sangrenta do iceberg. No ano passado, foram contabilizadas 30 mil participações de violência doméstica junto das autoridades. Mas quantas ficaram por contabilizar? Muitas com certeza. Seja como for, importa registar que, nesta questão, a diferença entre o tuga e o tal islamita está no grau e não na natureza. Bem-vindos, portanto, à República Islamita de Portugal.

Moral desta história camiliana? É simples: se anda a cair muitas vezes nas escadas do prédio, se anda a partir o rosto em três sítios diferentes com sucessivas escorregadelas na banheira, a minha cara leitora só tem de fazer uma coisa: ir à esquadra mais próxima com um livro de Camilo debaixo do braço.