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A Tempo e a Desmodo

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Aumentos? E produzir, não?

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É uma das coisas mais desconcertantes em Portugal: a malta desliga o "aumento salarial" do "aumento da produtividade". O "aumento" é visto como um dado adquirido, seja qual for a produtividade.

I. Portugal não pode voltar a apostar no modelo ("cavaquista"?) dos baixos salários. Aliás, nós estamos a assistir ao colapso desse paradigma assente nos salários baixos, que, por isso, eram atractivos para as multinacionais-que-deslocalizavam-as-suas-fábricas-para-Portugal. Com os chineses e afins no mercado global, este paradigma português estava destinado ao colapso.

II. Para entrarmos num modelo de salários mais altos, a sociedade portuguesa precisa de arrumar as ideias. E essa arrumação pode começar por aqui: em Portugal, as pessoas ainda pensam que os patrões não aumentam os salários dos trabalhadores, porque não querem. Estou desconfiado que muita gente julga que o dinheiro sai de uma torneira mágica, que só não é aberta devido à maldade do patrão. Na base deste preconceito, está uma noção rudimentar da economia, bem criticada por Jorge Marrão e José Maria Brandão de Brito:

"é claro que vivíamos todos melhor se todos ganhássemos mais. Mas, se é assim tão fácil, porque não aumentamos administrativamente os nossos salários? Por que razão os empresários não aumentam mais os seus trabalhadores? Será apenas por ganância? Ou será por miopia? Se estas opiniões forem maioritárias, resta-nos acabar com "eles" e entregarmo-nos uns aos outros através do Estado ou de novas instituições que nos resolvam a criação e produção de riqueza colectiva e individual (...).

III. Só há um caminho para o aumento sustentado de salários: o aumento da produtividade. Os sindicatos e afins têm de compreender uma coisa simples: "os salários elevados significam principalmente elevadas produtividades". Os portugueses têm de "reconhecer e aceitar que os salários mais elevados vão para os sectores de mais elevada produtividade, e para os trabalhadores mais qualificados, mais flexíveis e mais comprometidos com a empresa e com a sua formação". É assim tão difícil compreender isto? É assim tão difícil sair da lógica habitual do "patrão versus trabalhador"? É assim tão difícil compreender que um aumento salarial não pode ser um acto administrativo desligado da produtividade? Como dizia a minha avó, o dinheiro não cai da telha.