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A Tempo e a Desmodo

As escolas desistiram de ensinar português?

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Às vezes, a realidade é demasiado alucinada. Às vezes, nós lemos e ouvimos uma coisa, mas fingimos que não ouvimos nada. Há dias, a grande Maria do Carmo Vieira escreveu um artigo no Público. Dizia assim: "... em 2002 (e, agora, em 2011), peritos e militantes da nova ideologia pedagógica, incluindo a Associação de Professores de Português, acusaram a literatura de prejudicar o estudo da língua e impedir o trabalho com a oralidade, defendendo, com intransigência, o desaparecimento da literatura dos programas e a exclusividade de textos utilitários e informativos". Bom, perante isto, uma pessoa não acredita à primeira. Tem de reler para confirmar. E, depois da segunda leitura, só há uma coisa a dizer: esta gente devia ser banida das escolas. A associação de professores da língua portuguesa está a dizer que os escritores da língua portuguesa são um empecilho às aulas de português. Caramba, isto é um episódio dos Monty Python no meio da realidade. Isto é a realidade transformada numa comédia do absurdo.

Como se isto não fosse suficiente, parece que os testes passaram a ser de cruzinhas. Parece que o ato de ler e o ato de escrever estão a ser banidos das aulas de português. Estas pedagogias pós-moderninhas da treta estão a criar pessoas sem a capacidade de pensar, sem a capacidade de imaginar coisas além daquilo que veem na TV. Não por acaso, estes pedagogos pós-moderninhos impõem os Morangos com Açúcar como assunto de estudo nas aulas de português. Romances? Não. Telenovelas juvenis é que é. Poesia de Camões? Não, isso da linguagem simbólica é muito puxado. Aparição? É, pá, não, porque as crianças ainda ficavam traumatizadas com o assassínio da galinha.

No meio disto tudo, a esperança é só uma: os verdadeiros professores de português não se revêem nesta posição da excelsa Associação de Professores de Português. Ou será que a nova vaga de professores olha para Maria do Carmo Vieira com desdém? Digam-me que não.