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A Tempo e a Desmodo

Aqueles médicos devem ser despedidos

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Admiro a coragem de António Ferreira. O Presidente da Administração do Hospital de São João denunciou aquilo que o comum dos mortais sofre na pele: o absentismo de muitos médicos do SNS. As suas contas podem precisar de afinação, mas apontam para a realidade. Em média, diz Ferreira, cada cirurgião do SNS faz uma cirurgia por semana. Isto não é brincadeira. Isto é uma vergonha para o SNS e para a classe médica, que escusa de dar pulinhos de indignação para desviar atenções. Isto quer dizer que muitos médicos não cumprem o seu dever. Porquê? Enquanto mantêm o salário do SNS, vão ganhar a vida no privado e passam pelo hospital estatal só para dizer olá?

António Ferreira foi ainda mais duro e concreto, pois falou de 30 cirurgiões que, em 2011, não puseram os pés no bloco operatório do S. João. Das duas, uma: Ferreira está a mentir e isto é uma calúnia, ou estes 30 médicos têm de ser punidos. E, neste ponto, o sempre excitadinho bastonário da ordem dos médicos tem razão quando afirma que Ferreira devia denunciar publicamente os nomes destes médicos. Como contribuinte idiota, acrescento que Ferreira devia despedir os infractores. Um cirurgião que não opera durante um ano só tem dois caminhos possíveis: ou tem a dignidade de sair pelo seu próprio pé, ou tem de ser despedido (o S. João já despediu 200 pessoas por elevado absentismo). Os bons profissionais do S. João, em particular, e do SNS, em geral, deviam ser os primeiros a defender este ponto.  

Se não conseguir punir estes médicos, António Ferreira deve apresentar a demissão. E, nesse hipotético cenário, ficaríamos a saber que é impossível gerir os médicos do SNS devido à acção de leis rígidas que impedem o exercício da autoridade por parte das administrações. Se calhar, ainda vamos descobrir que um cirurgião que não põe os pés no bloco não pode ser despedido devido a "direitos adquiridos" garantidos pelo "vínculo".